quinta-feira, dezembro 30, 2010

quinta-feira, dezembro 30, 2010

O tal do ano novo...


Acordou com os barulhos da casa...

Apurou bem os ouvidos e percebeu risos, vozes, um entre e sai de gente e até músicos afinando seus instrumentos e, podia jurar, que também ouvira alguns foguetes explodindo.

Estranhou toda aquela movimentação, pois o Natal já havia passado e, certeza tinha, não era aniversário de ninguém da família.

Não sabia ainda olhar as horas no relógio, mas pelos roncos da sua barriga, já devia ser hora do almoço e fora esquecida, ninguém viera chamá-la.

Saiu do quarto e constatou que a casa estava toda enfeitada; salas, jardins, varanda, com balões brancos e amarelos e velas das mesmas cores.

Tentou perguntar para algum adulto o que estava acontecendo, mas ninguém prestava atenção nela, teve até medo de estar invisível.

Viu Filó, a arrumadeira, carregada de roupas brancas, falando que tinha pouco tempo para passar todas aquelas peças.

A curiosidade era tanta, mas a fome era maior ainda. Resolveu unir a fome com a vontade de saber e foi atrás de Jovina, a cozinheira, que nunca lhe negara um petisco e também não lhe negaria alguma explicação.

E, dito e feito, Jovina, enquanto lhe preparava um belo sanduíche, contou-lhe que toda aquela alegria era pela morte do ano velho e a chegada do ano novo. Ao ouvir isso,  entendeu menos ainda, não sabia bem sobre a morte, mas sabia que quando alguém morria, sumia e todos lamentavam a sua ausência, mas não era isso que estava acontecendo, todos estavam sorrindo e pareciam felizes com a morte do ano velho e, mais uma vez, Jovina explicou-lhe o significado de toda aquela festa.

Ela, então, foi tomada de grandes expectativas pela chegada do tal Ano Novo.

À noite, encantou-se com a festa de cores e sons que os fogos de artifício faziam no azul-escuro do céu e, ansiosa, perguntou à mãe quando o homenageado chegaria. A mãe lhe respondeu que fosse dormir, porque já era muito tarde e que só nas primeiras horas da manhã ele viria , trazendo boas novas para todos.

Mas  nem conseguiu dormir, ficou na janela, esperando pelo Novo Ano e pelas novidades que ele traria..

A luz foi devorando a noite bem devagarzinho e, quando tudo clareou,  olhou em volta e não viu nada de diferente dos dias anteriores. Talvez, pensou, o ano, por ser tão novo, tinha se perdido pelo caminho e por isso se atrasou. Mas as horas foram passando, já ligeiras, e tudo continuou tão igual ao que era antes. E assim passaram-se os dias, os meses, e nada de diferente acontecia de outros anos, que podia se lembrar na sua curta existência...

Porém, seu pai morreu no decorrer daquele ano, cujo início foi tão comemorado, e ela mal completara cinco anos de idade.

Hoje, adulta, só comemora o fim de cada dia, quando o dia acaba bem.


na virada do ano seu único desejo
que mãos geladas acariciassem seu coração
que ardia em chamas

na madrugada as labaredas já lambiam
todo seu corpo

amanheceu cinzas

ao longe ainda se ouviam fogos explodindo
saudando o primeiro dia!


Que todos tenham o que comemorar ao final de cada dia do ano de 2011!