sábado, junho 28, 2008

sábado, junho 28, 2008

Puzzle

(Imagem J.S.H.)

quando te repartes;

recolho teus pedaços,

te monto, te remonto,

não desisto,

não te solto, não te deixo,

até que encaixo

todas as tuas partes,

dentro dos meus espaços.


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quinta-feira, junho 26, 2008

quinta-feira, junho 26, 2008

Choque Térmico

um frio intenso que congelou minhas palavras e uma febre que me fez arder, derretendo minhas idéias e estrangulando a inspiração;

assim foi minha última madrugada; ardida, doída, gelada, calada, vazia de prosa e poesia.

tentei me inventar um novo casulo, onde eu pudesse, enfim, esvaziar minha memória e dormir...

e até poderia, não fosse uma saudade esquisita gritando no meu peito; saudade de uma paixão não tocada, não vivida e apenas sentida por mim.

(ontem nem seu rastro encontrei, não vi suas pegadas)

amanheci cinza, com a alma encolhida, nublada, escura como uma noite sem estrelas, sem lua.



Uma Dica

Quem duvida que no caos urbano das grandes cidades exista muita poesia, acesse a exposição virtual do Fabio Reoli – um show de imagens fotografadas pelo Poeta e de textos escritos por vários autores. Clique na imagem e comprove.


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terça-feira, junho 24, 2008

terça-feira, junho 24, 2008

Página Virada

(Imagem J.S.H.)

Mais uma vez iria virar uma página na sua vida. Já tinha feito isso outras vezes, muitas vezes. Sempre que terminava algum romance costumava escrever sobre ele, depois virava a página e fim. Amor de verdade, só sentiu uma única vez e, quando tudo acabou, escreveu um livro inteiro, que fechou bem fechado e o guardou onde não pudesse encontrar mais tarde. Teve paixões outras que não deixaram saudade, nem marcas, nem recordações e que ocuparam poucas linhas daquele seu folhetim. Mas o que poderia escrever desta vez? Não tinha uma história para contar, apenas palavras soltas; sem beijos, sem abraços. Se escrevesse algo, teria que ser um monólogo, uma peça de ato único, para só um ator – ela. Pela primeira vez, todas as falas foram somente dela. Tinha se comportado como uma tola apaixonada, como um desses bonecos biruta, que balançam os braços, ao sabor do vento, para chamar atenção ou então como a vaquinha mimosa, que se deixava enfeitar com flores na cabeça e guizos no pescoço para servir de brincadeira para a molecada e depois andava devagar, obediente, pois não tinha escolha senão ir para onde a estavam levando. Ainda criança, jurou a si mesma que nunca seria como aquela vaca e sim como a égua castanha Lua, que não deixava que ninguém a montasse e que também não aceitava que qualquer garanhão a cobrisse, só o melhor da fazenda. Havia se esquecido desse juramento, como também dos conselhos do avô, para sempre manter a coluna ereta, para olhar os outros de cabeça erguida, olhos nos olhos, para nunca se vergar. Por não ter se lembrado, ela se vergara, quase implorara por um pouco de carinho, mas sobre isso jamais poderia escrever, ainda lhe restara algum orgulho. E, decidida, virou a página - em branco.

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domingo, junho 22, 2008

domingo, junho 22, 2008

Só Comigo Mesma

Queria compor um poema, talvez de amor, mas falta-me (sua) voz e apenas o silêncio ocupa todos os meus espaços.

tentei pensar naquele beijo, que você nunca me deu, mas os seus lábios eram gelados e me queimaram com uma paixão de gelo.

não sei por quais caminhos você se dispersa; o que faz das suas horas, quando eu me encontro sozinha, lá, onde procuro nos achar.

desde sempre me sinto doer, meu corpo é demasiado pequeno e frágil para suportar tamanha vontade por quem não me sabe e nem me percebe.

das noites escuras e frias, materializam-se fantasmas e com eles a orgia dos sentidos, a magia expressiva da língua, dos dedos...

não fosse a imaginação o melhor dos estimulantes, esta madrugada seria mais uma realidade insone e entediante.

então, enquanto você não vem ...

que venham os fantasmas!

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quinta-feira, junho 19, 2008

quinta-feira, junho 19, 2008

Sem versos, sem rimas

agora o que me cala
é a saudade,
que sem nenhuma piedade,
rouba minha palavra,
devora o meu verbo,
engole meu verso,
e cospe na minha rima.

e fico eu assim;
muda,
no vazio deste espaço,
aquietando meu coração,
para que ele não me rasgue
o peito
e corra para os seus braços.
(enfim)


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terça-feira, junho 17, 2008

terça-feira, junho 17, 2008

A Pura e o Puro Sangue

Não se sabe se por sorte ou azar, ela tinha nascido com uma cara de anjo; cabelos loiros encaracolados, olhos azuis amendoados, nariz arrebitado, covinhas no rosto. Quando criança, era sempre a escolhida para coroar Nossa Senhora no mês de maio e para representar a Virgem no presépio, em dezembro. Sua professora, uma velha freira, sempre lhe dizia que só a achavam bonita porque era boazinha, pura e obediente, mas se algum dia deixasse de ser, seu rosto se transformaria de belo em feio e ela, por medo de enfear, cresceu obedecendo a tudo e a todos; às leis de Deus, aos pais, aos professores. Sempre só fazia e agia de acordo com o que esperavam dela.

Já adolescente, tinha um segredo, sua paixão por cavalos, principalmente por aquele garanhão negro, de nome Faísca. Costumava sair escondida, à noite, vestindo apenas uma curta camisola sobre a pele nua, para cavalgá-lo. Gostava da sensação do seu corpo desnudado sobre o pelo do cavalo. Depois voltava para a casa e se penitenciava, rezando trezentas Ave- Marias, pelo pecado de sair sem autorização dos pais, o único que reconhecia ter.

Aos dezoito anos, arranjaram-lhe um marido, um homem de posses, bem mais velho. Ela acostumada a obedecer, se submeteu à vontade dos pais e assim o casamento foi marcado.

Porém, continuava a galopar, todas a noites, o seu garanhão.

Certa madrugada, viu Faísca cobrir a égua Estrela e não soube entender os arrepios que lhe percorreram o corpo, sua garganta seca, seu pulso acelerado, seu coração disparado.

Poucos dias antes do casamento, chegou à fazenda um jovem de nome Roque, que havia sido contratado para cuidar dos cavalos. Roque era tão ou até mais negro do que Faísca e ela passou a observá-los, galopando juntos. Não sabia onde terminava o homem e começava o cavalo ou vice-versa e as imagens dos dois, misturadas, preenchiam todos os seus pensamentos, provocando-lhe calores e outras sensações que ainda não conhecia.

Na sua última noite de solteira, não se conteve e chorou, pois sabia que na noite seguinte, todos os seus sonhos terminariam, quando aquele homem, por quem até sentia nojo, a tomasse por esposa e resolveu fazer, pelo menos aquela única vez, o que realmente tinha vontade e não o que esperavam que fizesse e encaminhou-se para o estábulo.

Assim que seus olhos se encontraram, Roque soube o que ela queria. Beijou-lhe a curva do queixo, perto da orelha, e deslizou seus lábios suavemente até que suas bocas se encontrassem num longo beijo. Ela então se afastou dele e deixou que a camisola escorregasse pelo seu corpo e, inteiramente nua, deitou-se sobre mantas, na baia onde ficava Faísca, e se ofereceu a ele.

Quando já era dia, ela voltou para o seu quarto, rezou seiscentas Ave-Marias, tomou um longo banho e foi se vestir de noiva, o casamento seria dali a poucas horas.
Ao meio dia em ponto, entrou na igreja. No corpo, o vestido branco, sem nódoas, imaculado, como todos sonharam para ela; nos olhos uma lembrança: seu sangue sobre a manta, misturado aos semens daqueles dois garanhões negros.
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sábado, junho 14, 2008

sábado, junho 14, 2008

Amor

Afinal o que é o amor?
é um sentimento inventado
por um poeta,
grande fingidor,
que poetou e mentiu,
com tal veracidade,
que a gente até acreditou
que a mentira era verdade.

(o que o poeta buscava,
era apenas uma palavra
que rimasse com a sua dor.
só isso e mais nada).

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sexta-feira, junho 13, 2008

sexta-feira, junho 13, 2008

Prece a Santo Antônio

Meu Santo Antônio querido
não preciso de um marido,
nem de alguém que me ame,
só quero um namorado,
que me aconchegue,
que me cubra, me abrace,
que seja meu travesseiro,
daqueles de corpo inteiro,
pois isso já me basta!

e se for aquele moreno,
com cara de safado,
de fala mansa, arrastada,
pele cor de jambo, tatuada,
vou ficar deveras encantada
e pra sempre agradecida.

por favor meu Santo,
atenda ao meu pedido
Amém!


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quarta-feira, junho 11, 2008

quarta-feira, junho 11, 2008

Com que sobras...

Alheia ao que me cerca,
ao que é fato, ao que é mentira,
estou dispersa, solta, só.
é inútil procurar por mim,
não consigo me encontrar.
não sei mais quem sou,
onde me perco, onde me acho.
mesmo distantes,
teus olhos ainda vejo,
me espreitando com desejo.
se mal me basto
para matar minha própria fome,
com que sobras vou alimentar
estes teus lábios salivantes?!

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domingo, junho 08, 2008

domingo, junho 08, 2008

Que Cala!

entre o arder da pele,

os desejos inconfessos

e o medo que me toma;

o resto que resta,

o abismo que não fala,

o vazio que emudece as palavras

e que cala, me cala!

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sexta-feira, junho 06, 2008

sexta-feira, junho 06, 2008

Sempre-viva

os homens que já amei
todos se foram, morreram.
a cada despedida,
meu coração se partia
e eu também morria;
mas bem antes do sétimo dia,
antes mesmo que o galo
cantasse pela terceira vez,
eu os (re) negava
e me ressuscitava



mesmo quando a vida
se torna uma viagem,
pelo inverno e pela noite escura,
eu busco uma passagem,
uma rota de fuga, no céu azul,
onde alguma estrela sempre brilha.


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quarta-feira, junho 04, 2008

quarta-feira, junho 04, 2008

Estranha Mulher

(imagem J.S.H.)

Sente-se uma estranha neste mundo, nunca conseguiu se situar nele. Desde criança, quando algo a entristece, a fere, se isola de tudo e de todos, num silencio que impressiona quem a cerca, como se entrasse em seu próprio útero. Já adulta, por uma dor sentida, ficou tanto tempo calada, que quando quis falar sua voz tinha sumido, havia se esquecido do som das palavras.

Costuma dizer que quem nomeou a “dor”, jamais havia sofrido, pois três letrinhas, apenas, não poderiam acolher a dor que lhe cabe.

Sobre seu dom, nunca contou a ninguém, sabe que não acreditariam; quando a vida fica muito feia, ruim, triste demais, ela consegue escapulir, fugir, sem precisar tirar os pés do chão.

A primeira vez que descobriu ser capaz de tal proeza, foi como se sua alma quisesse romper suas entranhas para ganhar liberdade, sentiu muito medo e quis recuar, mas foi o próprio medo quem a fez prosseguir, o medo que tinha da vida. Então se aquietou , rezou uma Ave Maria e se viu flutuando no ar, tão leve que fez as piruetas que quis, como as dos palhaços nos picadeiros. Dançou no espaço e descobriu ter uma alma bailarina. Cantou, sorriu, se lançou ao encontro de mãos inexistentes, como fazem os trapezistas; uma enorme felicidade a invadiu, sentia-se livre, calma, suave, bela e pensou que não queria mais sair daquele universo paralelo, até então desconhecido, mas onde as estrelas estavam ao alcance de suas mãos. Se dependesse da sua vontade, nunca mais voltaria - só que não dependia.

A partir desse dia, sempre quando se sente acuada, infeliz, fragmentada, foge do próprio corpo, até colar seus pedaços e voltar a ser inteira, só para se deixar quebrar novamente.

Por ser uma tola, acredita em fadas, gnomos, duendes e até em pessoas e ainda espera encontrar um tesouro ao final do arco-íris, que pode ser um coração para aquele homem de lata, por quem se encantou, um novo amor ou apenas a vontade de continuar acreditando.


(mas quando nada funciona, nem o jogo do contente da Pollyana, nem sonhar a felicidade como Dorothy, faz como qualquer outra mulher, apenas chora).

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domingo, junho 01, 2008

domingo, junho 01, 2008

O(s) Pecado(s) da Fome

Gula

por maior que seja a minha fome,
não me contento com refeições apressadas,
muito menos com restos e migalhas.
só me satisfaço quando a ceia é completa
incluindo a entrada, o licor e a sobremesa.


Avareza

apesar da fome que o homem tinha, ela não se comovia,
trancava a porta e (se) comia sozinha.


Inveja

tanto cobiçava a comida do vizinho,
que se esquecia de comer o que tinha em casa.


Ira

Todos os dias ela o alimentava,
menos aos sábados, domingos e feriados,
nestes dias o homem comia só em casa
e ela matava sua própria fome.


Luxúria

Antes que ele chegasse para jantar,
ela se perfumou com gotas de chocolate


Soberba

Se não fosse fina a iguaria, ela não se apetecia
e, portanto, não comia. morreu seca, de anorexia.


Preguiça

só comia deitado e sempre do mesmo prato.


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