quarta-feira, abril 30, 2008

quarta-feira, abril 30, 2008

Parabéns Iosif Landau

Pílulas
Iosif Landau

Estou esperando as pílulas fazerem efeito
branca para o coração bomba
vermelha para o coração alma
Estou esperando que a ansiedade
levante vôo e desapareça
estou esperando a chuva virar enchente
levar na corrente os excrementos
e o esperma solidificado debaixo
das marquises em ruína
Estou esperando o dia em que
tudo se esclarecerá e que consigam
sintonizar o nascer com a vida
E estou esperando que Nelson Rodrigues
deixe de perambular esquecido
Estou esperando que a TV pátria
não roube nossos corações e mentes
Estou esperando que nos cofres do FMI
sejam depositados em definitivo
as cinzas da América Latina cremada
E estou esperando que os pulmões
primeiromundistas se fartem de gás carbono
Estou esperando que nos morros em sangue
bandidos e polícia sumam para sempre
Estou esperando que a morte seja preguiçosa
E se esqueça da minha existência
Estou esperando que os Marines permaneçam
nos Shores of Trípoli e não inventem
o Vietnã verde amarelo
E estou esperando um salário mínimo
que não seja uma farsa
Estou esperando que me digam
porque os negros são castigados
Estou esperando Schubert acabar
o inacabado
Estou esperando o encontro
do Saci com Macunaíma e ver o resultado
Estou esperando o êxtase
de ler o poema perfeito
Estou esperando pelo renascimento
do homem arado numa terra fértil
Estou esperando acabarem com os conflitos
sem matar ninguém
E estou esperando pela imortalidade
pelas esquivas amantes
e por um abraço profundo.

(publicado no livro Confissões
Editora Papel & Virtual)
Iosif Landau meu querido amigo

Você já se imortalizou com a sua belíssima obra.

Eu esperava, ansiosamente, por este dia,
para lhe dar oitenta e quatro abraços profundos
de carinho, admiração e de agradecimento
por ter composto tantos poemas perfeitos.

Parabéns Poeta - Feliz Aniversário!

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terça-feira, abril 29, 2008

terça-feira, abril 29, 2008

Meu Tempo

(imagem J.S.H)

Quando meu amor estava comigo, sabia que ia embora logo que clareasse o dia e implorava ao tempo que se aquietasse, ali, naquele momento, mas o malvado não me ouvia, implacável, corria ligeiro e de nada adiantava meus choros e rogos, não havia força ou impossibilidade que o fizesse parar;

Agora que meu amor ainda tarda a voltar, só de pirraça o tempo pára de vez em quando, os segundos parecem minutos, os minutos duram horas e as horas uma eternidade.

Enquanto espero por uma nova noite, sento-me à janela para ver a vida correr e, perdida nas minhas lentas horas, deixo que o tempo escorra pelos meus olhos.

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domingo, abril 27, 2008

domingo, abril 27, 2008

Toque

a suavidade dos teus dedos
meu corpo rendido ao toque do desejo
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quinta-feira, abril 24, 2008

quinta-feira, abril 24, 2008

Livre


Depois de escrever toda a história que viveu com ele, sem se preocupar com formas e expressões, ela dormiu um sono profundo de completa exaustão emocional. Acordou cedo na manhã seguinte, dominada por uma alegria profunda, induzida pelo sono.

Quis reler o que o que tinha escrito e terminada a leitura, experimentou uma sensação que subia dos pés à cabeça, uma sensação que há muito não sentia e que no momento não conseguia identificar, embora soubesse que era importante. Tentou apreender a sua essência, mas foi só depois de ver Misha, seu gato persa, saltar pela janela e correr feliz pelo jardim é que começou a compreender. Sentia-se livre. Sentia que uma imensa pilha de escombros do passado fora removida. Fora uma carga enorme, opressiva, que lhe exigira uma atenção quase que total ao longo dos últimos anos. De certa forma, ao vomitar sobre as folhas de papel o que a oprimia, ela entendeu tudo e se libertou de uma vida em que estivera amarrada e amordaçada por tabus, medos e segredos irracionais. Agora tinha uma nítida visão de todos os fatos. Ele, embora tivesse tentado aniquilá-la, nunca fora o seu algoz, fora algoz de si próprio. Era ele o fraco, o dependente da relação, não ela, embora antes parecesse o contrário. Pensou nele, com o cachimbo nos lábios, sentado na mesma cadeira, chamando-a sempre e desta vez começou a perdoá-lo; e ao perdoá-lo, deu o primeiro passo no caminho de esquecê-lo.

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domingo, abril 20, 2008

domingo, abril 20, 2008

Restos


Ao findar a madrugada,
restos de tudo e de nada;
falas marcadas por palavras gastas
e pontuações respiradas,
lençóis amarrotados,
um projeto mal esboçado de amor
e ela, apenas pele e osso,
uma alma atormentada
e as violetas que ele plantou
no seu pescoço.


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sexta-feira, abril 18, 2008

sexta-feira, abril 18, 2008

Apenas...


Quando você for voltar, amor,
não se faça anunciar.
entre devagarinho,
pise de mansinho,
me encontre distraída, desavisada...
traga um sorriso no rosto,
me faça um carinho, me dê um beijo.
de você não quero muito, quero pouco;
apenas sua boca, sua pele, seu corpo,
seu desejo, a sua alma
e mais nada!


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terça-feira, abril 15, 2008

terça-feira, abril 15, 2008

Lippy o Gnomo


Eu tinha dezenove anos e estava prestes a me casar quando resolvi voltar à fazenda do meu avô onde passei os melhores dias da minha vida. Vovô já tinha falecido e a fazenda ficou de herança para o meu tio Anselmo e já não era mais a mesma, tinha perdido todo o encanto e transformada numa elegante casa de campo. Para minha decepção, nem mais animais criavam e eu que estava saudosa das minhas cavalgadas. Mas mesmo assim, resolvi ficar por lá alguns dias.

Na quarta noite, depois de uma chuva intensa, ficamos sem eletricidade, apanhei uma vela e subi para o meu quarto, tão diferente do quarto da minha infância. O barulho da chuva, agora mansa e o canto dos grilos logo me fizeram adormecer, mas com um gosto de saudade na boca.

Devia ter dormido algum tempo, quando acordei ouvindo um barulhinho; a luz da vela bruxuleava, prestes a extinguir-se, mas pude ver um homenzinho do tamanho da palma da minha mão, sentado com as pernas cruzadas, em cima da cômoda, segurando delicadamente meu despertador dourado e inclinando de lado a cabeça grisalha para escutar o tique-taque. Estava tão interessado que não notou que eu me sentara na cama e olhava pra ele. De repente deu por mim, deslizou para o chão e correu em direção à porta tão depressa quanto as suas pequenas pernas o permitiam.

- Não tenhas medo, gnominho – disse-lhe eu – sou apenas eu. Não fujas que eu te mostro o que tem nessa caixinha de ouro que te interessa tanto. Ele se deteve imediatamente e me olhou com seus olhinhos espertos.

- Não compreendo nada - me disse, julguei sentir o cheiro de uma criança neste quarto, pois do contrário não teria entrado e tu pareces uma mulher.

Porém, me olhando mais atentamente, exclamou:

- Que sorte a minha, encontrar-te aqui novamente! És a mesma garotinha que eu vi pela ultima vez no quarto das crianças na casa velha ou então nunca poderia ter me visto esta noite, sentado na cômoda. Não me reconheces? Era eu quem te visitava toda noite, quando toda a casa dormia, e punha ordem nas tuas coisas, te acalentava e acalmava as suas aflições. Era a mim que trazias sempre um pedaço de bolo, bombons e passas e nunca te esquecias da minha papa de aveia..

Sim, eu me lembrava dele, Lippy ( o nome era enorme, mas era assim que eu o chamava, apenas Lippy). O Gnominho que tinha vindo para o Brasil, fugindo da neve, no bolso do meu avô, em sua última viagem à Irlanda, eu nem era nascida.

Ele me contou as várias artes que eu fazia quando criança e que ele sempre dava um jeito de me proteger para que eu não levasse bronca dos mais velhos.

- Mas é verdade tudo que me conta da minha infância? Devo ter sido uma criança bem levada

- O que te conto é a pura verdade, de uma ponta a outra, mas não me responsabilizo pelo que dizes aos outros. Parece que mistura sempre realidade e sonhos, como fazem todas as crianças.

- Não sou mais criança, faço 20 anos no mês que vem.

- Claro que és uma criança grande ou nunca poderias ver-me se não o fosse; só as crianças podem ver os gnomos. Mas já está ficando muito tarde e prometestes me mostrar a caixinha de ouro. Afinal que tens tu nessa caixinha? É algum animal? Pareceu-me ouvir o pulsar de um coração no interior dela.

- O que tu ouves é o latejar do coração Tempo.

- O que é o Tempo – perguntou-me Lippy.

- Não sei explicar-te , nem ninguém poderá te dizer o que significa o Tempo. Dizem que se compõe de três coisas diferentes: O Passado, o Presente e o Futuro.

- E o trazes sempre contigo nesta caixinha de ouro?

- Sim, não descansa nunca, não dorme e não cessa de repetir a mesma coisa aos meus ouvidos.

- E compreendes o que ele diz?

- Ai de mim! Por demais o entendo. Diz-me a cada segundo, cada minuto, a cada hora do dia e da noite, que envelheço e hei de morrer. Dize-me Lippy tens medo da morte?

- Medo do quê?

- Medo do dia em que teu coração deixará de bater, em que a engrenagem da máquina caia em pedaços, em que teu pensamento se apague e a vida se extinga, vacilando, como a desta frágil vela.

- Quem te meteu essas bobagens na cabeça? Não dês ouvidos ao que te diz essa voz dentro da caixa de ouro, com esses disparates sobre o Passado, Presente e Futuro. Não compreende que tudo isso é a mesma coisa? Não percebes que alguém faz troça de ti dentro da caixa? Não acredites numa única palavra do que te diz, tudo são mentiras. Ficarás sendo criança toda a vida, nunca envelhecerás, nem nunca morrerás. Deita-te e dorme um pouco. Não tarda que o sol se erga por cima das árvores e que um novo dia entre pela janela e tu verás mais claro do que viste à luz da vela. Tenho que ir-me embora. Adeus sonhadora, que feliz encontro

- Pois é, que feliz encontro gnominho!

Ele se foi e eu perdi o medo que tinha da morte...

Nunca mais o vi, talvez preocupada por demais com a minha vida de adulta, esposa e mãe, tenha sufocado a criança que sempre existiu dentro de mim.

Mas outro dia, passeando na Serra do cipó, tenho certeza que vi, atrás de um lindo arbusto de azaléias, Lippy me acenando.

É isso, crescer sim, mas sem perder a ternura.

E ainda tem gente que não acredita em gnomos!

(baseado em fatos e em algumas lembranças que guardo do livro maravilhoso: O Livro de San Michele, de Axel Munthe, que li aos treze anos, presente do meu avô)
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sábado, abril 12, 2008

sábado, abril 12, 2008

Grito Sussurrado


Naquela hora, quando você já ia embora,
juro que tentei gritar
amor não vá!
mas meu grito saiu sussurrado,
quase calado, não foi percebido.
e agora esse grito agarrado,
ainda ressoa na minha alma,
roubando-me o sono e a calma
nas madrugadas que passo acordada.
Breve se fará dia, amor,
e esta noite será mais uma noite perdida,
talvez seja lembrada, talvez seja esquecida
nas tantas outras que ainda virão,
gritando a sua ausência aos meus ouvidos.


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quarta-feira, abril 09, 2008

quarta-feira, abril 09, 2008

Útero de Deus

Às vezes penso que Deus é Mãe e não Pai;
que este mundo é o seu ventre,
o grande útero de Adonai.
que somos todos embriões esperando,
não a derradeira hora, mas a primeira,
do nascer para a verdadeira vida
e que a morte, tão temida,
é apenas a parteira.

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segunda-feira, abril 07, 2008

segunda-feira, abril 07, 2008

Magia ou Loucura

(imagem J.S.H)

Não! nunca foi amor,

foi loucura ou pura magia;

ele me beijava em noite escura

e o céu se iluminava

com estrelas que só eu via.


(quando ele foi embora,
o meu céu se apagou
naquela mesma hora;
mas não, nunca foi amor!)



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sexta-feira, abril 04, 2008

sexta-feira, abril 04, 2008

Palavras Perdidas

(imagem J.S.H.)

Não sei se as minhas palavras estão perdidas, soltas por ai, ou se estão aprisionadas na falta de inspiração;

enquanto não as encontro, meus sentimentos estão nus, sem as palavras que os (re)vestiam e só me resta guardá-los neste silêncio que grita alto dentro de mim e que me deixa muda, calada.


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quarta-feira, abril 02, 2008

quarta-feira, abril 02, 2008

Negão sim e por que não?


Talvez nunca se conhecessem, não fosse aquele jogo de futebol...

Final de campeonato e o placar não saia do 0 x 0, seu time precisava vencer para ser o campeão, mas aos 47 minutos do segundo tempo, o grito de gol que estava preso na garganta ganhou liberdade e Raquel, de tanta euforia, se atirou nos primeiros braços que encontrou abertos.

E foi aí que tudo começou, ela ficou ali abraçada com ele por um longo tempo, não queria se desgrudar, esqueceu do seu time campeão e só pensava que o contraste dos seus braços alvos com aqueles braços negros despertava deliciosas sensações em seu corpo

Gustavo sentiu a mesma coisa, não queria mais soltá-la, queria ficar, para sempre assim, colado naquela garota tão loira e tão branca.

Na verdade, não mais se separaram, se apaixonaram e começaram um lindo caso de amor.

Era tanta paixão, tanto desejo, que se amavam em qualquer lugar, a qualquer hora, fosse de dia, fosse de noite, num tal de “vem cá minha branquinha”, “chega mais meu negão” e nem se importavam com quem estivesse a escutar.

Os dois viviam na maior felicidade, até que alguém, ouvindo Raquel chamar Gustavo por negão, disse que o termo era pejorativo, que indicava preconceito;

Raquel ficou atônita, nunca fora preconceituosa, sempre respeitara todas as raças, todos os credos, todas as ideologias, não fazia distinção entre as pessoas e não seria logo com o amado que iria ter preconceito, apenas o chamava, carinhosamente, de negão, como ele a chamava de branquinha e mais surpresa ficou, quando o tal alguém disse que “branquinha” podia, não denunciava preconceito. Claro que ela não entendeu o porquê disso, mas como sempre fizera questão de ser politicamente correta, se prometeu nunca mais chamá-lo assim.

E naquela noite, quando se encontraram na praia, para mais uma noite de amor e prazer, Raquel com a sua voz mais sensual disse:

- Vem meu afro-descendente, vem me fazer mulher!

Gustavo ao ouvir isso caiu na risada, nunca tinha escutado frase mais broxante, então não era mais seu negão? Que ela o desculpasse, mas ao ser chamado de afro-descendente, todo seu desejo tinha se acabado, estava murcho, gelado.

Raquel se desesperou, ia ficar na mão, literalmente, que se danasse o tal de politicamente correto e com a sua voz rouca de sempre gritou:

- Vem logo meu negão, que a sua branquinha não aguenta mais de tanto tesão!

E com o céu e o mar por testemunhas, os dois se amaram por toda a madrugada, com a fúria dos animais.

Ele continuou sendo o negão dela e ela a sua branquinha e viveram felizes para sempre, mesmo politicamente incorretos.



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terça-feira, abril 01, 2008

terça-feira, abril 01, 2008

A mentira deste dia


Ele mentia todo o tempo, mentia que a amava, que tinha reunião de trabalho após o expediente, que estava tomando uma cervejinha com o Zé, seu amigo de infância, que tinha ido assistir ao jogo de futebol, mesmo sem saber responder quem tinha marcado o gol da vitória ou qual time havia vencido, mentia que era fiel e aquele perfume forte e vulgar em sua roupa era da moça que estava no elevador;

era uma mentira atrás da outra, dia após dia, mas negava que mentia e jurava que dizia a verdade, até que chegava o primeiro de abril e...

neste dia também mentia, claro, só que admitia!


No primeiro de abril os mentirosos de todos os dias fingem que só mentem neste dia!
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