quarta-feira, janeiro 30, 2008

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Metamorfose


Era só uma lagarta, dessas bem comuns, simpática e até bonitinha. Vivia feliz e livre, rastejando no seu mundinho todo verde, mas tinha alma de borboleta e sonhava ser uma.

Admirava todas as criaturas aladas, aplaudia seus vôos, suas conquistas e imaginava como seria bom, se ela, também, pudesse chegar mais perto do azul do céu, das luzes do sol, da lua, das estrelas.

Um belo dia, alguém lhe disse que se ela ousasse, se perdesse o medo, poderia criar asas e se tornar borboleta.

Então acreditou; ousou, criou asas e, timidamente, ensaiou seus primeiros vôos.

A princípio se extasiou, gostou da sensação de voar, dos raios de luz sobre ela, de ganhar aplausos, de ser admirada...

Mas, com o passar do tempo, começou a incomodar outras borboletas, veteranas na arte de voar, e a despertar a cobiça de caçadores, que a queriam transformar em flor, amarrar suas asas e a enraizar na terra.

Perdeu a alegria de voar e começou a temer pela sua liberdade.

A luz não mais a atraia como antes e sentia saudade da época que vivia livre e feliz, à sombra de outros seres.

Pobre borboleta! Descobriu que sempre teve alma de lagarta.

Hoje sonha com nova metamorfose.
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terça-feira, janeiro 29, 2008

terça-feira, janeiro 29, 2008

Perdão Amigo!


Perdão, eu te peço à distância, e torço para que me surpreendas no verde amarelado da íris, instantes antes de eu deitar novamente incógnitos meus segredos sobre teus olhos.
(Patrícia Antoniete)


Meu Amigo Querido


Fui arrogante, prepotente, ciumenta e infantil, quando o acusei, injustamente, sem lhe dar o direito de defesa.

Estou aflita, agoniada, com o meu coração desassossegado e muito triste.

Pelo imenso carinho que lhe tenho, aceite minhas desculpas, meu arrependimento sincero e volte a ser meu amigo, por favor!


Eu ♥ Você!

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sábado, janeiro 26, 2008

sábado, janeiro 26, 2008

A Ré

Por toda noite
esteve sentada no banco dos réus.
As acusações contra ela eram muitas
e cravavam em sua alma como espinhos.
Não entendia porque estava sendo julgada
e nem conseguia se lembrar
de quando cometera
todos aqueles crimes.
Ao final seu acusador perguntou
o que teria a dizer em sua defesa;
olhou-o com seus olhos de chuva
e disse apenas:
- Te amo!
Não conseguiu absolvição
e foi condenada à liberdade.
Só lhe resta cumprir sua pena.
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quinta-feira, janeiro 24, 2008

quinta-feira, janeiro 24, 2008

O Jogo da Vida


Vivia a vida como se jogasse pôquer, apostava muito, a cada rodada se arriscava mais.

Naquela noite o cacife era alto, resolveu apostar todas as suas fichas, seria tudo ou nada...

Blefou, pagaram para ver, deu o “nada”, perdeu tudo.

Aprendeu que só ganha quem sabe blefar melhor.

Hoje joga “paciência”, apenas.


(variações sobre o mesmo tema, leiam: Edson Marques e Paula Barros)


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terça-feira, janeiro 22, 2008

terça-feira, janeiro 22, 2008

Catarina, o gato e eu


Tenho quatro bichinhos de estimação; Bibinho - o cãozinho, um casal de canarinhos - Tuiu e Tula e Catarina, minha lagartixa.

Catarina é a caçulinha e apareceu na minha casa ainda filhotinha, minúscula, meio assustada, fugindo da chuva e, sem nenhuma cerimônia, entrou pela janela da sala de música e já foi subindo pela parede, toda serelepe, até que encontrou um quadro e atrás dele se escondeu

Logo me apaixonei pela bichinha, decidi adotá-la e batizá-la com o nome de Catarina. Fizemos até uma reunião, eu, Laura, Tuiu, Tula, Bibinho e resolvemos, de comum acordo, que Catarina, a partir daquele dia, faria parte da família e seria muito amada. E assim tem sido, formamos uma família feliz.

Catarina é esperta, não se mostra para estranhos, fica quietinha atrás do quadro e só aparece quando chego em casa e a chamo cantando assim:

♪Catarina vem cá embaixo

Que uma hora estou aqui

A noite está tão clara

Eu não posso nem dormir♪

Então sai do seu esconderijo e vem comer ração de passarinho (ela é vegetariana). Busco a gaiola dos canarinhos, o Bibinho vem correndo, a Laura se senta no sofá, coloco um CD de música clássica (Catarina tem ótimo gosto musical, adora Mozart, eu já gosto mais de Chopin, mas não temos atrito por conta disso) e ficamos nós seis, ouvindo a melodia. Os canários fazem o coro, Catarina e Bibinho marcam o ritmo com os respectivos rabos. Uma cena perfeita, que me deixa quase plenamente feliz, pois ainda me falta um gato.

Não um gato qualquer, mas um determinado gato, pelo qual me encantei.

O danado do bichano é arisco, apareceu certo dia na minha varanda, se enroscou na minha perna, fez charminho, porém quando fui agarrá-lo, fugiu. Sempre volta, gosta de ser acarinhado, se insinua e depois vai embora.

Tempos estou de olho no gato. Toda tarde fico à espera dele, às vezes vem, outras não. Quando aparece, me olha com olhos pedintes e chego a acreditar que me quer também, mas se faço um movimento mais ousado, o bicho recua, torna a fugir...

e a minha vontade do gato só vai aumentando.

Talvez esse gato já tenha dona. Será?

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domingo, janeiro 20, 2008

domingo, janeiro 20, 2008

A idade da Alma


  
Que idade tem a tua alma? Não sabes responder?
Então posso te dizer:

Tua alma, não importa a idade que tenhas, é velha, milenária.

Todas as almas são velhas, pois são as mesmas desde os primórdios dos tempos. Vão e voltam, em corpo de homem ou corpo de mulher - vários frascos, uma única essência-. A morte é o repouso da alma, passado o tempo do descanso, a alma volta à terra -  é um eterno retornar.

Tua alma é como um diamante guardado numa caixa de papelão e  por mais bonita que seja essa caixa vai se deteriorar com o tempo, mas o diamante continuará belo e brilhante, o mesmo de antes.

Quando te leio, te olho, não me importa a tua idade, nem tua aparência, nem tua condição social-financeira, nem teu sexo...

 Quando te olho, te leio, é a tua alma que vejo; assexuada, despida de vaidade, de roupas, de embalagens, lindamente nua.

E a minha velha alma se apaixona pela velha alma tua.




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sexta-feira, janeiro 18, 2008

sexta-feira, janeiro 18, 2008

O Violinista e a Bailarina

 
Arthur e Leila conheceram-se no hospício...

Arthur um grande violinista, acostumado a se apresentar em vários países, sempre com teatro cheio e aplaudido ao som de “bravo”.

Em uma de suas apresentações na Suécia, resolveu esquiar, mas acidentou-se e quebrou os dedos da sua mão direita. A conclusão dos médicos foi terrível, não tinha sido bem cuidado, sua mão ficou aleijada, não tinha mais mobilidade e estava incapacitado para executar a sua arte.

Arthur perdeu o gosto pela vida, não tinha mulher, não tinha filhos, seu único amor: o violino, sua única paixão: a música. Quis morrer e se jogou pela janela, mas não morreu, bateu a cabeça e perdeu a memória. Desmemoriado não se lembrou que estava aleijado, viu o violino e começou a tocá-lo ainda melhor do que antes. Não falava com as pessoas , já que não as conhecia, e só fazia executar lindas melodias .

Mal não fazia a ninguém, mas começou incomodar a toda gente e resolveram interná-lo no hospício, como louco, até que recuperasse a memória.

Leila sempre foi bailarina, desde pequenininha, mas não se destacava entre as outras, dançava certinho, porém sem nenhum brilho. Um dia foi presenteada, pelo avô, com um par de sapatilhas douradas. O avô lhe disse que eram mágicas e ela acreditou e por acreditar, começou a dançar lindamente. Tornou-se a primeira bailarina da companhia, fez sucesso, correu mundo, mas só dançava com as suas sapatilhas douradas.

Porém, uma camareira desavisada, ao ver aquelas sapatilhas, velhas, rotas, estragadas, no meio de outras novinhas, jogou-as no lixo.

Leila chorou. Sem as suas mágicas sapatilhas era incapaz de dançar, experimentou vários outros pares, mas seus pés se recusavam a sair do chão, pesavam como se chumbo fossem.

Se não mais bailava, não tinha serventia para a Companhia, havia enlouquecido e a internaram no hospício.

E foi lá que tudo aconteceu...

Leila se arrastava pelos corredores do hospital, com a sua tristeza e seus pés de chumbo, até que ouviu o som do violino e seus pés criaram asas, começaram a bailar, a flutuar, ao ritmo da musica, e a levaram até Arthur e seu violino.

Arthur, quando viu a bailarina e seu bailado, de pronto se apaixonou e a sua musica, tocada com nova emoção, mais bonita ficou.

E assim começou uma linda história de amor.

Ele tocando e ela dançando conforme a música...

e os dois loucamente felizes.

(Louco é quem não acredita que os sonhos possam se realizar).


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terça-feira, janeiro 15, 2008

terça-feira, janeiro 15, 2008

Laura, Meu Poema de Amor


Parir foi como compor

o mais belo poema de amor.

minha maior alegria,

meu maior prazer,

é lamber a minha cria.



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segunda-feira, janeiro 14, 2008

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Rapidinhas...


Não foi a palavra que me machucou,
foi o silêncio;
o que não foi dito depois do amor.



Leu-me sem emoção.
nunca entendeu o que escreviam
meus olhos, meu coração.



Apenas três letras para acabar com a sua agonia
e sossegar seu coração,
queria que formassem um “sim”
mas acabaram por escrever um “não”



Desistiu de escrever sua história
no meio da trama,
antes de gravar o fim.
achou melhor assim,
escreveu: continua...
(na cama).


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sábado, janeiro 12, 2008

sábado, janeiro 12, 2008

Só por hoje

(imagem J.S.H)

Só por hoje queria esquecer
o que me fez desistir de você.
Só por hoje queria esquecer
que não sinto falta dos teus beijos
que não mais te desejo.
Só por hoje queria me lembrar
de como era gostoso te ter,
de como era feliz por te amar.
Só por hoje...
(preciso de você)

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quinta-feira, janeiro 10, 2008

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Abandono

Seria difícil dizer quando houve essa mudança dentro dela. Não foi repentina. Não foi um súbito despertar. Foi uma caminhada, lenta, dorida, rumo ao equilíbrio. À medida que caminhava mais se fortalecia. Tudo aquilo que antes a aterrorizava e afligia, parecia menos ameaçador. Desaparecera muito do que tinha importância, pois finalmente enfrentara e domara o monstro do abandono. De todos os seus medos, perdê-lo parecia o pior, no entanto ela o perdeu e descobriu que a vida era possível sem ele. A ausência dele não mais lhe doía. Guardaria com ela o que aprendera com ele, assim como ele ficaria com o melhor dela.
O tempo dos dois havia acabado.
A história deles jamais chegaria até o fim.

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terça-feira, janeiro 08, 2008

terça-feira, janeiro 08, 2008

Trem Bão, Uai!

Eulália nunca conheceu outra paisagem a não ser aquela, da pequena cidade incrustada entre as montanhas, no interior do interior das Minas Gerais.

Nascida e criada ali, pela avó, D.Quitéria, desde que ficara órfã de pai e mãe, aos 2 anos de idade, sonhava conhecer um mundo diferente que, talvez existisse além das montanhas. Mas não via como realizar seus sonhos.

D. Quitéria, que era mulher muito religiosa, ao enviuvar renunciou aos prazeres mundanos, os poucos que tinha, e se dedicou às coisas de Deus, às coisas do padre e à educação da neta, único parente que lhe sobrara.

A menina cresceu ouvindo a avó lhe dizer que moça direita devia andar na linha, não usar roupas que marcassem as formas, manter os cabelos presos, não usar maquiagem, andar de cabeça baixa e olhos, igualmente, baixos. Tudo isso para não despertar a cobiça dos homens. — Moça cobiçada, moça perdida — assim dizia a avó.

D.Quitéria sentindo que seu tempo neste mundo estava se esgotando, tratou de arrumar marido para a neta que, afinal, iria completar 25 anos. E ninguém melhor que o Sr. Joaquim, proprietário do único armazém das redondezas, homem de posses, viúvo, pai de três filhos e que estava à procura de uma moça boa que servisse de mãe para os seus pequenos. Combinaram tudo, sem que Eulália soubesse. Marcaram a data do casamento, contrataram festa, enfeites para a igreja.

Uma semana antes do enlace, a moça foi apresentada ao noivo, mas, conforme lhe ensinara a avó, sequer levantou a cabeça para olhá-lo nos olhos.

Às vésperas das bodas, D. Quitéria achou por bem conversar com a neta sobre os deveres de uma boa esposa, mas se limitou a dizer que o marido iria procurá-la para fazer “certas coisas”, que ela tinha o dever de servi-lo, mas que se mantivesse quieta, não esboçasse nenhum movimento e nem emitisse som algum, ou o homem poderia pensar não ser ela digna de usar seu nome, tampouco de ser mãe de seus filhos.

E tudo aconteceu conforme previsto pela avó. Durante quatro anos de casamento, todos os domingos, religiosamente, às 21 horas, Joaquim se servia de Eulália. Levantava sua camisola, deitava-se sobre ela e, por exatos cinco minutos, gemia, fungava, até que se derramava dentro dela. Depois, virava pro lado e dormia, roncando como um porco.

Ela sentia nojo de tudo aquilo, mas não se queixava e nunca se rebelava, apenas cumpria sua obrigação de esposa devotada, como havia jurado ao padre.

Filhos seus não teve, seu útero se recusou, por duas vezes, a manter os frutos de todo aquele desamor. Não tendo os seus, cuidava dos filhos do marido, dele mesmo e da casa. No mais, todo santo dia ia à missa das 6 da manhã, para rezar pela alma da avó, que já tinha ido desta para uma melhor.

O tempo passou e ela, permaneceu andando, como sempre, na linha.

Às vezes se despia em frente ao espelho, soltava os cabelos, se olhava e gostava do que via, mas logo lembrava da avó dizendo que por trás de cada espelho havia um demônio escondido, para espiar as moças que se desnudavam perante ele. Cobria-se rapidamente e tratava de esquecer que ainda era jovem e bonita.

Mas, naquela noite de calor insuportável, com o homem roncando ao seu lado, sentiu uma vontade enorme de experimentar algum prazer nesta vida. Vestiu-se com sua melhor roupa, tingiu a boca com papel crepom vermelho, para lhe dar um pouco de cor, e saiu pela noite, a caminho da estação ferroviária, na esperança que alguém a encontrasse e a fizesse se sentir desejada, amada.

Era a chance que o destino gozador, irônico e manipulador, esperava para intervir em sua vida.

E foi assim que, na única hora em que resolveu se desviar da linha, um trem desgovernado a invadiu pelas costas, pela frente, virando-a de ponta-cabeça.

E toda a cidade acordou com o grito da moça:

— Nossinhora! Que trem bão por demais da conta, uai!

Foi a última noite de Eulália na vida de antes...

e a primeira noite de uma outra vida bem mais prazerosa.

(Nós, mineiros, costumamos chamar a tudo de "trem", quer seja o próprio, quer seja outra coisa qualquer).

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domingo, janeiro 06, 2008

domingo, janeiro 06, 2008

Saudade

"Saudade", palavra só conhecida em galego-português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. A palavra vem do latim"solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar".

É esta a definição encontrada na Wikipédia para saudade, mas como conseguir expressar, por palavras, esse sentimento de dor que me toma inteira, a falta de sons, de risos, o silêncio que nada preenche?

Minha avó plantava flores várias, de todas as cores, que encantavam e perfumavam a minha infância. No seu jardim sobressaia uma florzinha roxa, linda, chamada saudade, que se alastrava rápido e invadia os espaços das outras flores.

Mas creio que saudade não é flor, é erva daninha que se esparrama e domina o nosso coração, a nossa mente, rouba-nos a alegria, o ar, a vontade de viver.

O compositor da moda de viola cantou a saudade assim:


♪ A tua saudade corta
Como aço de naváia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
E os óio se enche d'água
Que até a vista se atrapáia, ai, ai♪


Mas foi Chico Buarque quem melhor falou sobre esse sentimento na música “Pedaço de Mim”


♪ Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi ♪


Eu não sei qual é a melhor definição para saudade, só sei que é uma dor tamanha, que não cabe explicação.

A saudade não tem piedade, atropela, não adianta fechar porta e janela, que ela sempre invade a gente.

É isso!


"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."
( Clarice Lispector )



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sexta-feira, janeiro 04, 2008

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Incompatibilidade

Era por pura gula

que ele comia.

ela por prazer e

quando lhe apetecia

(mais se alimentava

de sonhos e poesia).

a tola nunca percebeu

a fome (dela)

que o homem tinha.

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quarta-feira, janeiro 02, 2008

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Delírios

Na virada do ano seu único desejo:
que mãos geladas acariciassem seu coração
que ardia em chamas.

Na madrugada as labaredas já lambiam
todo seu corpo;

amanheceu cinzas.

Ao longe ainda se ouviam fogos explodindo

Saudando o novo dia!

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