segunda-feira, outubro 20, 2008

segunda-feira, outubro 20, 2008

30 anos...


acordou com os barulhos da casa, risos, cochichos e com o cheiro de flores que se espalhava pelo ar;
na hora sentiu que aquele era um dia diferente, mas ainda sonolenta custou a se lembrar...

dezenove de outubro, dia do seu aniversário, seus 30 anos, desde sempre esperados, porque acreditava que com esta idade atingiria a maturidade plena e com ela a calmaria dos sentidos, o predomínio da razão sobre a emoção.

mas se sentia igual, nada parecia ter mudado. dentro dela ainda a menina misteriosa, crédula, sonhadora, romântica, capaz de tremer de paixão por alguém distante 1301 quilômetros.

fechou os olhos e numa fração de segundos recordou toda a sua vida:

os aniversários da infância, quando seu pai a colocava a cavalinho sobre os ombros para que não se escondesse debaixo da mesa, por timidez, na hora de soprar as velinhas do bolo; o seu melhor presente, o gnomo Lippy, que seu avô lhe trouxe da Irlanda e que esteve junto dela até que perdesse a inocência, quando então desapareceu para nunca mais voltar;

a primeira vez que sangrou, o seu primeiro baile, o primeiro namorado, o primeiro beijo, o seu casamento, a sua primeira noite de mulher;

das dores do parto, das dores por todos os seus mortos;

das vacas pastando para lá da colina cercadas pela liberdade dos rios sem cercas e dos cavalos selvagens que a procuravam com o olhar;

dos seus mil medos, dos mil prantos vertidos, dos anjos e demônios que sempre a rodearam e do seu fascínio por estes últimos, embora lhes virasse às costas e sorrisse para os anjos — abraçava a luz na vertical e lutava com as sombras à revelia.

da sua identificação com a mariposa e sua dança mortal atraída pela lâmpada, pelo fogo.

por todas essas lembranças foi penetrada, por todas se emocionou, por todas sorriu, por todas chorou...

nada havia mudado, ela era a mesma de antes, ainda que o espelho, com a sua verdade, insistisse em lhe gritar o contrário.

o jeito era enfrentar a sua festa, se encher de coragem, colocar no rosto seu melhor sorriso e apagar as 30 velinhas, já que todas as mesas haviam encolhido e nenhuma mais a escondia.

talvez quando completar 70 anos seu coração se aquiete, sua sensibilidade adormeça e ela possa, enfim, usufruir de eternos tempos de calmaria.



(agradecida de ♥ a todos que me presentearam com carinho e votos de felicidade pelos meus 30 anos de idade.)


Leia AQUI os comentários feitos sobre esta postagem