domingo, setembro 14, 2008

domingo, setembro 14, 2008

Cobiça ou Leda e o Cisne


A cobiça é o desejo desenfreado de possuir o que pertence a outro e não a nós e, segundo a Bíblia, pecado mortal;

"Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu servo, nem a sua serva, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo." (Êxodo 20:17).

Pois é, mas mesmo sabedora que a cobiça é um pecado, eu o tenho cometido nesses últimos tempos...

Costumo freqüentar uma galeria de arte - “Errol Flynn”, situada aqui em Beagá e recebo catálogos sobre as obras expostas, as destinadas à venda simples e as que serão leiloadas;

Ao receber um desses catálogos, sobre quadros, esculturas e gravuras que seriam leiloados em Brasília, no dia 26 de agosto, encantei-me por uma tela - Leda e o Cisne - pintada na década de 60, por Vicente do Rego Monteiro, e senti um desejo enorme de possuí-la, mas, infelizmente, por motivos vários, não me foi possível arrematá-la. Desde então, não paro de pensar nela e, confesso, com uma ponta de inveja de quem enfeita sua parede com esse lindo quadro tão cobiçado por mim.




A história que inspirou a tela


Certa vez, Zeus ia a caminho da cidade de Tróia e encontrou Leda, a jovem esposa de Tíndaro, herdeiro do reino de Esparta, deitada seminua na relva e parou para contemplá-la de longe. Temendo assustá-la com sua figura gloriosa e resplandecente, Zeus transforma-se em um cisne imenso e de bela plumagem para poder cortejar a princesa.

Ao ver o belo cisne se aproximando, Leda senta-se e começa a observá-lo. Diante dos olhos da princesa, o cisne começa a mover suas asas com grande excitação, movimenta seu corpo em uma dança de vai e vem que mostra seu desejo e soa sua voz delicada, emitindo sinais de atração e paixão. Leda ficou fascinada e o cisne aproximou-se mais e começou a tocá-la e acariciá-la com suas plumas e seu longo pescoço.

Excitada, Leda deitou-se novamente na relva, aguardou que o cisne se deitasse sobre ela e então se amaram.

Meses depois a princesa sente fortes dores e percebe que de seu ventre haviam saído dois ovos: do primeiro, nascem Castor e Helena, do segundo, Pólux e Clitemnestra.

Os filhos de Leda e Zeus, Castor e Pólux, tornam-se grandes guerreiros e amigos inseparáveis. Porém Castor (que herdou a mortalidade humana) perde a vida em uma batalha e Pólux (que herdou a imortalidade divina) suplica a Zeus que devolva a vida ao irmão. Comovido com esta demonstração de amor fraterno, Zeus propõe a Pólux dividir sua imortalidade, alternando com o irmão um dia de vida e um dia de morte.

Assim os irmãos passaram a viver e a morrer alternadamente e Zeus os homenageia com a constelação de Gêmeos, na qual não poderiam ser separados nem com a morte.



O mito de Leda e o Cisne sobrevive e suas expressões nas artes podem ser encontradas desde as esculturas na Grécia antiga até na pintura contemporânea.


Vicente do Rego Monteiro (Recife, 19 de dezembro de 1899 — 5 de junho de 1970) foi um pintor, desenhista, professor e poeta brasileiro.

Iniciou seus estudos artísticos na Escola Nacional de Belas Artes, (Rio de Janeiro), em 1908 e os complementou na França, na Académie Colarossi, na Académie Julien e na La Grande Chaumière.

Além de pintor e poeta, Vicente do Rego Monteiro era também um bom dançarino, tendo vencido vários concursos de dança de salão em Paris.




Leda e o Cisne


William Butler Yeats
trad. de Paulo Vizioli


Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.

Capturada assim,
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?