quarta-feira, agosto 06, 2008

quarta-feira, agosto 06, 2008

Entre a terra firme e o simples ar...

Trôpega, caminha na fronteira entre a terra firme e o simples ar - entre duas realidades paralelas e antagônicas -, com os pés descalços de outros mundos quaisquer, para não magoar as searas com suas pegadas; a areia fina que lhe fere os pés, é morfina para as dores da alma; a taça, da qual bebe, é feita do mesmo vidro que a sangra; a boca, que verte palavras que inebriam seus sentidos, escarra outras, cortantes como a lâmina de um punhal. reparte suas mãos em garras para não se deixar tombar e estática, no limite do equilíbrio, contempla o abismo que se abre à sua frente - a luta entre a vertigem que cativa, que chama e o medo que domina, que impede que se jogue -. indecisa, não sabe se passa os últimos dias de inverno calçada com confortáveis e velhas pantufas ou se coloca seus patins e sai deslizando em alta velocidade, com o vento brincando no seu rosto, com a adrenalina correndo solta pelo corpo, sem se importar com os riscos, sem temer as quedas, sem receio de se quebrar, sempre em frente na pista frágil, em busca do que lhe falta. enquanto não se resolve, a voz que a alimenta se cala e surda, morta de fome, não sabe se terá forças para esperar pela primavera.

tomara ela ainda possa se encontrar onde sempre se deixa, quando a angústia não mais lhe cabe e faz transbordar suas horas.