terça-feira, junho 17, 2008

terça-feira, junho 17, 2008

A Pura e o Puro Sangue

Não se sabe se por sorte ou azar, ela tinha nascido com uma cara de anjo; cabelos loiros encaracolados, olhos azuis amendoados, nariz arrebitado, covinhas no rosto. Quando criança, era sempre a escolhida para coroar Nossa Senhora no mês de maio e para representar a Virgem no presépio, em dezembro. Sua professora, uma velha freira, sempre lhe dizia que só a achavam bonita porque era boazinha, pura e obediente, mas se algum dia deixasse de ser, seu rosto se transformaria de belo em feio e ela, por medo de enfear, cresceu obedecendo a tudo e a todos; às leis de Deus, aos pais, aos professores. Sempre só fazia e agia de acordo com o que esperavam dela.

Já adolescente, tinha um segredo, sua paixão por cavalos, principalmente por aquele garanhão negro, de nome Faísca. Costumava sair escondida, à noite, vestindo apenas uma curta camisola sobre a pele nua, para cavalgá-lo. Gostava da sensação do seu corpo desnudado sobre o pelo do cavalo. Depois voltava para a casa e se penitenciava, rezando trezentas Ave- Marias, pelo pecado de sair sem autorização dos pais, o único que reconhecia ter.

Aos dezoito anos, arranjaram-lhe um marido, um homem de posses, bem mais velho. Ela acostumada a obedecer, se submeteu à vontade dos pais e assim o casamento foi marcado.

Porém, continuava a galopar, todas a noites, o seu garanhão.

Certa madrugada, viu Faísca cobrir a égua Estrela e não soube entender os arrepios que lhe percorreram o corpo, sua garganta seca, seu pulso acelerado, seu coração disparado.

Poucos dias antes do casamento, chegou à fazenda um jovem de nome Roque, que havia sido contratado para cuidar dos cavalos. Roque era tão ou até mais negro do que Faísca e ela passou a observá-los, galopando juntos. Não sabia onde terminava o homem e começava o cavalo ou vice-versa e as imagens dos dois, misturadas, preenchiam todos os seus pensamentos, provocando-lhe calores e outras sensações que ainda não conhecia.

Na sua última noite de solteira, não se conteve e chorou, pois sabia que na noite seguinte, todos os seus sonhos terminariam, quando aquele homem, por quem até sentia nojo, a tomasse por esposa e resolveu fazer, pelo menos aquela única vez, o que realmente tinha vontade e não o que esperavam que fizesse e encaminhou-se para o estábulo.

Assim que seus olhos se encontraram, Roque soube o que ela queria. Beijou-lhe a curva do queixo, perto da orelha, e deslizou seus lábios suavemente até que suas bocas se encontrassem num longo beijo. Ela então se afastou dele e deixou que a camisola escorregasse pelo seu corpo e, inteiramente nua, deitou-se sobre mantas, na baia onde ficava Faísca, e se ofereceu a ele.

Quando já era dia, ela voltou para o seu quarto, rezou seiscentas Ave-Marias, tomou um longo banho e foi se vestir de noiva, o casamento seria dali a poucas horas.
Ao meio dia em ponto, entrou na igreja. No corpo, o vestido branco, sem nódoas, imaculado, como todos sonharam para ela; nos olhos uma lembrança: seu sangue sobre a manta, misturado aos semens daqueles dois garanhões negros.