terça-feira, junho 24, 2008

terça-feira, junho 24, 2008

Página Virada

(Imagem J.S.H.)

Mais uma vez iria virar uma página na sua vida. Já tinha feito isso outras vezes, muitas vezes. Sempre que terminava algum romance costumava escrever sobre ele, depois virava a página e fim. Amor de verdade, só sentiu uma única vez e, quando tudo acabou, escreveu um livro inteiro, que fechou bem fechado e o guardou onde não pudesse encontrar mais tarde. Teve paixões outras que não deixaram saudade, nem marcas, nem recordações e que ocuparam poucas linhas daquele seu folhetim. Mas o que poderia escrever desta vez? Não tinha uma história para contar, apenas palavras soltas; sem beijos, sem abraços. Se escrevesse algo, teria que ser um monólogo, uma peça de ato único, para só um ator – ela. Pela primeira vez, todas as falas foram somente dela. Tinha se comportado como uma tola apaixonada, como um desses bonecos biruta, que balançam os braços, ao sabor do vento, para chamar atenção ou então como a vaquinha mimosa, que se deixava enfeitar com flores na cabeça e guizos no pescoço para servir de brincadeira para a molecada e depois andava devagar, obediente, pois não tinha escolha senão ir para onde a estavam levando. Ainda criança, jurou a si mesma que nunca seria como aquela vaca e sim como a égua castanha Lua, que não deixava que ninguém a montasse e que também não aceitava que qualquer garanhão a cobrisse, só o melhor da fazenda. Havia se esquecido desse juramento, como também dos conselhos do avô, para sempre manter a coluna ereta, para olhar os outros de cabeça erguida, olhos nos olhos, para nunca se vergar. Por não ter se lembrado, ela se vergara, quase implorara por um pouco de carinho, mas sobre isso jamais poderia escrever, ainda lhe restara algum orgulho. E, decidida, virou a página - em branco.