quarta-feira, junho 04, 2008

quarta-feira, junho 04, 2008

Estranha Mulher

(imagem J.S.H.)

Sente-se uma estranha neste mundo, nunca conseguiu se situar nele. Desde criança, quando algo a entristece, a fere, se isola de tudo e de todos, num silencio que impressiona quem a cerca, como se entrasse em seu próprio útero. Já adulta, por uma dor sentida, ficou tanto tempo calada, que quando quis falar sua voz tinha sumido, havia se esquecido do som das palavras.

Costuma dizer que quem nomeou a “dor”, jamais havia sofrido, pois três letrinhas, apenas, não poderiam acolher a dor que lhe cabe.

Sobre seu dom, nunca contou a ninguém, sabe que não acreditariam; quando a vida fica muito feia, ruim, triste demais, ela consegue escapulir, fugir, sem precisar tirar os pés do chão.

A primeira vez que descobriu ser capaz de tal proeza, foi como se sua alma quisesse romper suas entranhas para ganhar liberdade, sentiu muito medo e quis recuar, mas foi o próprio medo quem a fez prosseguir, o medo que tinha da vida. Então se aquietou , rezou uma Ave Maria e se viu flutuando no ar, tão leve que fez as piruetas que quis, como as dos palhaços nos picadeiros. Dançou no espaço e descobriu ter uma alma bailarina. Cantou, sorriu, se lançou ao encontro de mãos inexistentes, como fazem os trapezistas; uma enorme felicidade a invadiu, sentia-se livre, calma, suave, bela e pensou que não queria mais sair daquele universo paralelo, até então desconhecido, mas onde as estrelas estavam ao alcance de suas mãos. Se dependesse da sua vontade, nunca mais voltaria - só que não dependia.

A partir desse dia, sempre quando se sente acuada, infeliz, fragmentada, foge do próprio corpo, até colar seus pedaços e voltar a ser inteira, só para se deixar quebrar novamente.

Por ser uma tola, acredita em fadas, gnomos, duendes e até em pessoas e ainda espera encontrar um tesouro ao final do arco-íris, que pode ser um coração para aquele homem de lata, por quem se encantou, um novo amor ou apenas a vontade de continuar acreditando.


(mas quando nada funciona, nem o jogo do contente da Pollyana, nem sonhar a felicidade como Dorothy, faz como qualquer outra mulher, apenas chora).