quarta-feira, abril 02, 2008

quarta-feira, abril 02, 2008

Negão sim e por que não?


Talvez nunca se conhecessem, não fosse aquele jogo de futebol...

Final de campeonato e o placar não saia do 0 x 0, seu time precisava vencer para ser o campeão, mas aos 47 minutos do segundo tempo, o grito de gol que estava preso na garganta ganhou liberdade e Raquel, de tanta euforia, se atirou nos primeiros braços que encontrou abertos.

E foi aí que tudo começou, ela ficou ali abraçada com ele por um longo tempo, não queria se desgrudar, esqueceu do seu time campeão e só pensava que o contraste dos seus braços alvos com aqueles braços negros despertava deliciosas sensações em seu corpo

Gustavo sentiu a mesma coisa, não queria mais soltá-la, queria ficar, para sempre assim, colado naquela garota tão loira e tão branca.

Na verdade, não mais se separaram, se apaixonaram e começaram um lindo caso de amor.

Era tanta paixão, tanto desejo, que se amavam em qualquer lugar, a qualquer hora, fosse de dia, fosse de noite, num tal de “vem cá minha branquinha”, “chega mais meu negão” e nem se importavam com quem estivesse a escutar.

Os dois viviam na maior felicidade, até que alguém, ouvindo Raquel chamar Gustavo por negão, disse que o termo era pejorativo, que indicava preconceito;

Raquel ficou atônita, nunca fora preconceituosa, sempre respeitara todas as raças, todos os credos, todas as ideologias, não fazia distinção entre as pessoas e não seria logo com o amado que iria ter preconceito, apenas o chamava, carinhosamente, de negão, como ele a chamava de branquinha e mais surpresa ficou, quando o tal alguém disse que “branquinha” podia, não denunciava preconceito. Claro que ela não entendeu o porquê disso, mas como sempre fizera questão de ser politicamente correta, se prometeu nunca mais chamá-lo assim.

E naquela noite, quando se encontraram na praia, para mais uma noite de amor e prazer, Raquel com a sua voz mais sensual disse:

- Vem meu afro-descendente, vem me fazer mulher!

Gustavo ao ouvir isso caiu na risada, nunca tinha escutado frase mais broxante, então não era mais seu negão? Que ela o desculpasse, mas ao ser chamado de afro-descendente, todo seu desejo tinha se acabado, estava murcho, gelado.

Raquel se desesperou, ia ficar na mão, literalmente, que se danasse o tal de politicamente correto e com a sua voz rouca de sempre gritou:

- Vem logo meu negão, que a sua branquinha não aguenta mais de tanto tesão!

E com o céu e o mar por testemunhas, os dois se amaram por toda a madrugada, com a fúria dos animais.

Ele continuou sendo o negão dela e ela a sua branquinha e viveram felizes para sempre, mesmo politicamente incorretos.