quinta-feira, abril 24, 2008

quinta-feira, abril 24, 2008

Livre


Depois de escrever toda a história que viveu com ele, sem se preocupar com formas e expressões, ela dormiu um sono profundo de completa exaustão emocional. Acordou cedo na manhã seguinte, dominada por uma alegria profunda, induzida pelo sono.

Quis reler o que o que tinha escrito e terminada a leitura, experimentou uma sensação que subia dos pés à cabeça, uma sensação que há muito não sentia e que no momento não conseguia identificar, embora soubesse que era importante. Tentou apreender a sua essência, mas foi só depois de ver Misha, seu gato persa, saltar pela janela e correr feliz pelo jardim é que começou a compreender. Sentia-se livre. Sentia que uma imensa pilha de escombros do passado fora removida. Fora uma carga enorme, opressiva, que lhe exigira uma atenção quase que total ao longo dos últimos anos. De certa forma, ao vomitar sobre as folhas de papel o que a oprimia, ela entendeu tudo e se libertou de uma vida em que estivera amarrada e amordaçada por tabus, medos e segredos irracionais. Agora tinha uma nítida visão de todos os fatos. Ele, embora tivesse tentado aniquilá-la, nunca fora o seu algoz, fora algoz de si próprio. Era ele o fraco, o dependente da relação, não ela, embora antes parecesse o contrário. Pensou nele, com o cachimbo nos lábios, sentado na mesma cadeira, chamando-a sempre e desta vez começou a perdoá-lo; e ao perdoá-lo, deu o primeiro passo no caminho de esquecê-lo.