terça-feira, abril 15, 2008

terça-feira, abril 15, 2008

Lippy o Gnomo


Eu tinha dezenove anos e estava prestes a me casar quando resolvi voltar à fazenda do meu avô onde passei os melhores dias da minha vida. Vovô já tinha falecido e a fazenda ficou de herança para o meu tio Anselmo e já não era mais a mesma, tinha perdido todo o encanto e transformada numa elegante casa de campo. Para minha decepção, nem mais animais criavam e eu que estava saudosa das minhas cavalgadas. Mas mesmo assim, resolvi ficar por lá alguns dias.

Na quarta noite, depois de uma chuva intensa, ficamos sem eletricidade, apanhei uma vela e subi para o meu quarto, tão diferente do quarto da minha infância. O barulho da chuva, agora mansa e o canto dos grilos logo me fizeram adormecer, mas com um gosto de saudade na boca.

Devia ter dormido algum tempo, quando acordei ouvindo um barulhinho; a luz da vela bruxuleava, prestes a extinguir-se, mas pude ver um homenzinho do tamanho da palma da minha mão, sentado com as pernas cruzadas, em cima da cômoda, segurando delicadamente meu despertador dourado e inclinando de lado a cabeça grisalha para escutar o tique-taque. Estava tão interessado que não notou que eu me sentara na cama e olhava pra ele. De repente deu por mim, deslizou para o chão e correu em direção à porta tão depressa quanto as suas pequenas pernas o permitiam.

- Não tenhas medo, gnominho – disse-lhe eu – sou apenas eu. Não fujas que eu te mostro o que tem nessa caixinha de ouro que te interessa tanto. Ele se deteve imediatamente e me olhou com seus olhinhos espertos.

- Não compreendo nada - me disse, julguei sentir o cheiro de uma criança neste quarto, pois do contrário não teria entrado e tu pareces uma mulher.

Porém, me olhando mais atentamente, exclamou:

- Que sorte a minha, encontrar-te aqui novamente! És a mesma garotinha que eu vi pela ultima vez no quarto das crianças na casa velha ou então nunca poderia ter me visto esta noite, sentado na cômoda. Não me reconheces? Era eu quem te visitava toda noite, quando toda a casa dormia, e punha ordem nas tuas coisas, te acalentava e acalmava as suas aflições. Era a mim que trazias sempre um pedaço de bolo, bombons e passas e nunca te esquecias da minha papa de aveia..

Sim, eu me lembrava dele, Lippy ( o nome era enorme, mas era assim que eu o chamava, apenas Lippy). O Gnominho que tinha vindo para o Brasil, fugindo da neve, no bolso do meu avô, em sua última viagem à Irlanda, eu nem era nascida.

Ele me contou as várias artes que eu fazia quando criança e que ele sempre dava um jeito de me proteger para que eu não levasse bronca dos mais velhos.

- Mas é verdade tudo que me conta da minha infância? Devo ter sido uma criança bem levada

- O que te conto é a pura verdade, de uma ponta a outra, mas não me responsabilizo pelo que dizes aos outros. Parece que mistura sempre realidade e sonhos, como fazem todas as crianças.

- Não sou mais criança, faço 20 anos no mês que vem.

- Claro que és uma criança grande ou nunca poderias ver-me se não o fosse; só as crianças podem ver os gnomos. Mas já está ficando muito tarde e prometestes me mostrar a caixinha de ouro. Afinal que tens tu nessa caixinha? É algum animal? Pareceu-me ouvir o pulsar de um coração no interior dela.

- O que tu ouves é o latejar do coração Tempo.

- O que é o Tempo – perguntou-me Lippy.

- Não sei explicar-te , nem ninguém poderá te dizer o que significa o Tempo. Dizem que se compõe de três coisas diferentes: O Passado, o Presente e o Futuro.

- E o trazes sempre contigo nesta caixinha de ouro?

- Sim, não descansa nunca, não dorme e não cessa de repetir a mesma coisa aos meus ouvidos.

- E compreendes o que ele diz?

- Ai de mim! Por demais o entendo. Diz-me a cada segundo, cada minuto, a cada hora do dia e da noite, que envelheço e hei de morrer. Dize-me Lippy tens medo da morte?

- Medo do quê?

- Medo do dia em que teu coração deixará de bater, em que a engrenagem da máquina caia em pedaços, em que teu pensamento se apague e a vida se extinga, vacilando, como a desta frágil vela.

- Quem te meteu essas bobagens na cabeça? Não dês ouvidos ao que te diz essa voz dentro da caixa de ouro, com esses disparates sobre o Passado, Presente e Futuro. Não compreende que tudo isso é a mesma coisa? Não percebes que alguém faz troça de ti dentro da caixa? Não acredites numa única palavra do que te diz, tudo são mentiras. Ficarás sendo criança toda a vida, nunca envelhecerás, nem nunca morrerás. Deita-te e dorme um pouco. Não tarda que o sol se erga por cima das árvores e que um novo dia entre pela janela e tu verás mais claro do que viste à luz da vela. Tenho que ir-me embora. Adeus sonhadora, que feliz encontro

- Pois é, que feliz encontro gnominho!

Ele se foi e eu perdi o medo que tinha da morte...

Nunca mais o vi, talvez preocupada por demais com a minha vida de adulta, esposa e mãe, tenha sufocado a criança que sempre existiu dentro de mim.

Mas outro dia, passeando na Serra do cipó, tenho certeza que vi, atrás de um lindo arbusto de azaléias, Lippy me acenando.

É isso, crescer sim, mas sem perder a ternura.

E ainda tem gente que não acredita em gnomos!

(baseado em fatos e em algumas lembranças que guardo do livro maravilhoso: O Livro de San Michele, de Axel Munthe, que li aos treze anos, presente do meu avô)