sexta-feira, março 14, 2008

sexta-feira, março 14, 2008

Por Culpa do Tempo


Ele, apressado, chegou muito adiantado e ela, por não saber onde estava ou se era esperada, chegou bastante atrasada.

quando, enfim, conseguiram se encontrar, ele já pensava em partir e só ainda estava por cá, à espera de alguém, que o levasse.

ela quis saber para onde ia, ele respondeu que ia para além do nada. e onde ficava o além do nada? ela perguntou, e ele respondeu que o além do nada não se situa, não é lugar, era um não mais sentir e, portanto, ele já devia ter ido, já que nada mais sentia...

deu-lhe um beliscão, ele gritou de dor e ela disse triunfante:

-você sentiu dor!

- dor é tudo que sinto e por isso quero logo partir para onde nada mais existe, nem a dor de agora, nem o prazer de outrora, que hoje me é negado.

ela tentou distraí-lo, impedir a partida, agora que o havia encontrado, não queria que se fosse e pediu que lhe contasse sua história e ele contou, ela mais ainda se encantou, lamentou-se por ter chegado tão tarde e sentiu saudade de um tempo que não tinha vivido.

ele então acrescentou:

-minha inocente menina, não se lamente, só lhe contei o que podia ser contado, minha vida teve dois lados, um, o que lhe foi confidenciado e outro que não foi revelado, obscuro, com gosto de pecado. eu amei todas as mulheres e por elas fui usado e depois abandonado.

- não acredita mais no amor? não quer ser amado?

- não acredito mais em nada, muito menos nas mulheres e nos prazeres que ainda possam me proporcionar, continuo sendo usado e hoje me faço de mutilado, estou velho, cansado e, por favor, me deixe aqui sossegado, esperando a minha hora de partir, com aquela que há de vir me buscar, a última que vai me possuir.

sem saber o que falar, o que fazer ou como agir, ela se calou, mas não se foi, ficou também a esperar e a rezar;

tempo, tempo, fique parado sem fazer alarde, tenho medo, já me fez perder a hora, não deixe que o agora vire passado, não quero que já seja tarde, pois ainda é muito cedo, para que ele se deixe levar embora!


(antes, nunca tinha conhecido um Homem como ele).