sábado, fevereiro 09, 2008

sábado, fevereiro 09, 2008

A Morte de Zé Elias


A primeira vez que tive contato com a morte tinha sete anos de idade e, confesso, achei tudo muito divertido.

Foi quando o velho Zé Elias morreu...

Zé Elias era um paraense que há muito tempo trabalhava na fazenda do meu avô. Diziam que tinha prá lá de 120 anos e sua única função era entreter a criançada com as histórias e lendas do seu amado Pará. Contava, entre outras, sobre os botos que se transformavam em homens e encantavam mulheres; sobre personagens que protegiam animais e plantas da floresta, desnorteando caçadores e sobre crianças geradas por índias grávidas da cobra-grande.

Era cuidado pela negra Jovina, mulher forte, de mãos calosas e de carnes abundantes.

Todas as manhãs, religiosamente, Jovina se dirigia à casinha de Zé Elias, o banhava, alimentava e o levava até a varanda, para tomar um pouco de sol.

Mas naquele dia, quando ela chegou para cuidar do velho, o encontrou duro, gelado, com os olhos arregalados. Fez o maior escarcéu e saiu gritando pelas redondezas

- O velho morreu! O velho morreu!

Foi um corre-corre na fazenda, a maior tristeza e trataram de providenciar o velório de Zé Elias ou cantar as sentinelas, como era costume lá pelas bandas do Pará.

Colocaram o morto sobre a mesa, acederam às velas e começaram a exortação:

Vá com Deus!
Lembre-se do nome de Jesus!
Olhe para a vela que alumia seu caminho!

E numa cadência pungente, como se fossem o próprio defunto, recitaram:

Aflita se viu Maria,
Aflita aos pés da Cruz;
Aflito me vejo eu,
Valei-me, Mãe de Jesus!

Uma voz cavernosa de homem bradou um “responso” triste:

Repouso eterno dai-lhe Senhor!

E o coro respondeu:

Da luz perpétua, o resplendor!

Depois do "repouso eterno", cantaram-se as "excelências”:

Uma excelência vai com vós;
Uma excelência da Virgem da Piedade.
Que é nossa Mãe,
Bendita, Dolorosa, Imaculada!

Alma, ó alma!
Que estás esperando?
Por uma excelência?
Já estamos cantando!

Depois de entoadas as excelências, as rezadeiras foram preparar o defunto para o enterro. Seria banhado e massageado com óleos perfumados e foi nessa hora que tudo aconteceu...

Quando as piedosas tocaram o corpo do velho, uma parte da sua anatomia se manifestou de forma irrefutável. Foi uma gritaria geral, as mulheres se atropelavam, todas queriam ver e pegar no “milagre”. Fizeram fila, deram Graças, pois Zé Elias não só estava vivo, mas continuava muito macho e o velório terminou em festança.

E o “ressuscitado”?

Quando foi questionado sobre o acontecido, respondeu com cara de safado feliz:

- Só um truquezinho que aprendi com as velhas índias do Pará, mandei minha alma passear um pouquinho, me fiz de morto, porque queria ser acariciado por mãos femininas mais suaves que as mãos de Jovina.

Zé Elias ainda viveu vários anos, sempre visitado pelas mulheres da região, principalmente pelas casadas.

Quando certa feita o encontraram novamente duro, frio, com os olhos arregalados, os homens providenciaram para enterrá-lo rapidamente, sem que fossem cantadas as sentinelas.

Por muito tempo acreditei que a morte era apenas uma comédia.