terça-feira, dezembro 04, 2007

terça-feira, dezembro 04, 2007

Uma História de Amor

Todos os grandes amores conhecidos, aqueles tidos como “por toda vida” eram amores impossíveis, complicados, onde os amantes eram impedidos de se encontrarem com freqüência, o que comprova a minha teoria que o estar junto sempre, a rotina, é o carrasco do amor.

Abelardo e Heloísa

Pedro Abelardo era filosófo, teólogo e professor. Aos trinta e sete anos conhece a jovem Heloísa, de apenas 17 anos, e por ela se apaixona.

Heloisa morava com seu tio e tutor, o cônego Fulbert de Notre Dame e Abelardo, para se aproximar dela, tornou-se amigo de Fulbert, que logo o aceitou como o mais novo professor de sua sobrinha, hospedando-o em sua casa, em troca das aulas noturnas que ele lhe daria.

Em pouco tempo essas aulas passaram a ser ansiosamente aguardadas e, sem demora, contando com a confiança de Fulbert, passaram a ficar a sós. Fulbert ia dormir e a criada retirava-se discretamente para o quarto ao lado. Abelardo é bem franco nessa passagem de sua vida:
"Que mais teria a acrescentar? Um mesmo teto nos reuniu, depois um mesmo coração. Sob o pretexto de estudar, nos entregamos inteiramente ao amor. (...) trocávamos mais beijos do que proposições sábias. (...) Os livros estavam abertos diante de nós, mas nossas palavras referiam-se mais ao amor que às letras; os beijos eram mais numerosos do que as explicações dos textos”.

Em alguns meses, conheciam-se muito bem, e só tinham paz quando estavam juntos, os dois se amavam apaixonadamente.

Mas, Abelardo acabou por não aguentar as noites de amor e os trabalhos de uma dura vida diária. A inspiração desaparecia, os seus cursos tornavam-se menos interessantes. Depressa toda a cidade ficou ao corrente do romance e quando, por sua vez, Fulbert compreendeu o que se passava, expulsou Abelardo da sua casa.

No entanto isso não foi suficiente para separá-los. Heloísa preparou poções para o seu tio dormir e, com a ajuda da sua criada, Abelardo foi conduzido ao porão, local que passou a ser o ponto de encontro dos dois.

Uma noite, porém, alertado por outra criada, Fulbert acabou por descobri-los. Heloísa foi espancada, e a casa passou a ser cuidadosamente vigiada. Mesmo assim o amor de Abelardo e Heloísa não diminuiu, e eles passaram a se encontrar, para satisfazer os seus desejos, onde pudessem, em sacristias, confessionários e catedrais, os únicos lugares que Heloísa podia frequentar sem acompanhantes a seu lado.

Heloísa acabou engravidando e para evitar escândalo, Abelardo levou-a à aldeia de Pallet, situada no interior da França. Ali, Abelardo deixou Heloísa aos cuidados de sua irmã e voltou a Paris, mas não aguentou a solidão que sentia, longe de sua amada, e resolveu falar com Fulbert, para pedir seu perdão e a mão de Heloísa em casamento.
Surpreendentemente, Fulbert o perdoou e concordou com o casamento.
Ao receber as boas novas, Heloísa, deixando a criança com a irmã de Abelardo, voltou a Paris e casaram-se no meio da noite, às pressas, numa pequena ala da Catedral de Notre Dame, sem nem trocar alianças ou um beijo, de modo a que ninguém desconfiasse.
O sigilo do casamento não durou muito, e logo começaram a zombar de Heloísa e da educação que Fulbert dera a ela. Ofendido, Fulbert resolveu dar um fim àquilo tudo. Contratou dois carrascos para invadirem o quarto de Abelardo durante a noite e castrá-lo.

Após o fato de sua castração, coberto de vergonha pelo que lhe havia acontecido, Abelardo entra para a vida monástica no convento dos monges Saint Denis e pressiona Heloísa a também entrar em um convento e assumir o véu monástico. Ela é levada por ele ao mosteiro Argentil e assume a vida no mosteiro em respeito e por amor a Abelardo.

Para tentar amenizar a dor que sentiam pela falta um do outro, ambos passaram a dedicar-se exclusivamente ao trabalho. Abelardo construiu uma escola-mosteiro ao lado da escola-convento de Heloísa. Viam-se diariamente, mas não se falavam nunca. Apenas trocavam cartas apaixonadas.

O amor de Heloísa permaneceu tão ardente como antes, escrevendo-lhe numerosas cartas cheias de paixão.

“Eu, porém, Deus o sabe, sempre temi mais ofender a ti do que, a Deus. É a ti que quero agradar não a Deus. Foi tua ordem que me fez monja, não o amor de Deus.”

Esta expressão encontrada em uma carta dirigida a Abelardo exemplifica claramente a veneração que ela tinha por ele, que a levou a blasfemar contra Deus.

“Caso não fosse sacrilégio, gostaria de gritar para todo o mundo: ó Deus cruel, cruel em tudo! Ó insensível misericórdia! Ó destino desalmado! (...) Não encontro em mim as forças para um arrependimento verdadeiro, com que me pudesse reconciliar com Deus. Devo antes acusá-lo da mais alta crueldade por causa daquele injusto castigo. Murmuro contra sua vontade e provoco sua ira em razão da minha rebeldia, ao invés de aplacá-la por meio de penitencia sincera.”

Heloísa realmente amou Abelardo de forma profunda, não foi apenas paixão ou atração. Ele, após ter sofrido o infortúnio, esfriou interiormente e veio à se tornar uma pessoa amargurada, embora continuasse a amá-la.

Abelardo morreu aos sessenta e três anos de idade em 20 de abril de 1142. Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem, e faleceu 20 anos depois, sendo, por iniciativa de suas alunas, sepultada ao lado dele.

Consta que, ao abrirem a sepultura de Abelardo, para ali depositarem Heloísa, encontraram seu corpo ainda intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando a chegada da amada.

Sepultura de Abelardo e Heloisa no Cemitério Père Lachaise em Paris