quinta-feira, dezembro 06, 2007

quinta-feira, dezembro 06, 2007

O Velho Judeu

Szoel, seu nome... Cabelos brancos revoltos, barba longa, magro, trazia nas costas arqueadas o peso de mil vidas vividas e nos olhos azuis, embaçados pela catarata, a melancolia e a dor de mil vidas sofridas.

A principio me olhou com certa desconfiança, talvez pelo meu sobrenome. Expliquei que não nasci com ele, que me foi emprestado e que em breve não mais o usaria. Contei-lhe de minhas origens, sobre meus antepassados, cristãos novos, que procuraram abrigo por estas terras na época da inquisição.

A partir daí, ficamos amigos. Pouco falava de si, mas uma única vez me contou do gueto de Varsóvia, de como ele e toda sua família foram levados para Auschwitz e como apenas ele se salvou, por ser pianista e animar as festas dos oficiais nazistas. Sentia-se culpado por isso.

Um pianista, isso explicava seus longos e belos dedos... Queria lhe presentear com um piano, mas como não foi possível, dei-lhe o meu teclado e ele tocava, para mim, várias vezes, entre outras, o Noturno no2 Opus 9, de Chopin, minha música predileta.

Às vezes se confundia e me chamava de Anita, mas nunca me disse quem foi Anita, se esposa, namorada, filha, mãe.

Sobre seu povo, sua leis, seus costumes, seus símbolos, falava muito. Contou-me sobre a Torá, o Livro Sagrado dos Judeus, sobre o Talmud, um compêndio da lei e comentários sobre a Torá. Sobre a Estrela de David, sobre o Memorá, candelabro com sete braços, símbolo sagrado do judaísmo, sobre a comemoração do Chanucá, quando em todo lar judaico acendem-se velas para relembrar os milagres ocorridos na antiga Israel, há cerca de 2.200 anos. (O chanucá é interpretado hoje em dia como um símbolo da sobrevivência do povo judeu).
Sobre o Yom Kipur, o dia do perdão, considerado o dia mais sagrado do calendário judaico... muito mais me contou.

Com Ele tudo aprendi sobre o povo judeu.

Nessa última noite, as 21:30h, meu amigo, cansado de esperar pela vinda do Yeshua Hamashiach, o Messias, partiu ao encontro Dele.

Tanto me ensinou, mas não me ensinou o que dizer numa hora destas de dor líquida e já de saudade.

Szoel, meu velho judeu, querido amigo, creio, firmemente, na ressurreição e na vida eterna, que a morte é apenas o momento em que o Criador recria sua criatura na comunhão plena com Ele, no Amor!

A Casa do Pai tem muitas moradas, que você tenha encontrado, enfim, a sua Terra Prometida.
Te amei, Te amo

Shalom!

Holocausto
Iosif Landau

Queria voltar à Palestina antiga
mesmo com o meu povo escravizado,
retornar, retornar à antiga lenda
da Terra do mel e flores,
o Fantasma não desaparece, reaparece
coroado com crânios descarnados,
não esqueçam, não esqueçam
a nunca imaginada carnificina,
não esqueçam!
gritam milhões de esqueletos
enfileirados na poça de sangue.