segunda-feira, dezembro 17, 2007

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Meu Cavalinho de Pau

Quando criança, no início do mês de dezembro, férias escolares, meu avô reunia todos os netos e nos levava para a fazenda. Lá montávamos uma verdadeira fábrica de brinquedos, brinquedos a serem reciclados e, posteriormente, distribuídos para as crianças carentes da região.

Eu tinha uns 4 anos e naquele ano não foi diferente. Todos nós, irmãos e primos tínhamos separado os brinquedos e, cada qual, tentava “consertar", da melhor maneira possível, os a serem doados. Os adultos ajudavam, enquanto minha avó preparava guloseimas mil para animar a reunião.

Às vezes os brinquedos ficavam até mais bonitos e dava aquela dorzinha no coração desfazer deles, mas já era uma norma na minha família, antes de ganhar os novos, deveríamos presentear os antigos, a quem não os podia comprar.

Mas naquela noite... eis que surge um molequinho, Tião, o garoto mais insuportável que, nos meus 4 anos, já tinha conhecido. Um garoto feio, desdentado, nove anos aproximadamente, que adorava puxar meus cabelos, sempre que por mim passava. Chegou com cara de coitado, falando que iria passar o Natal na cidade vizinha e, portanto, gostaria de ganhar seu brinquedo antes de partir. Tião, não sei o porquê, era o xodó da minha família e meu primo Fernando, outro insuportável, rapaz já, foi em seu quarto e trouxe para presentear o moleque, um lindo cavalinho de pau presente do meu avô, quando era pequeno.

Não era um cavalinho qualquer, era o mais lindo cavalinho de pau do mundo, no tamanho certinho para que eu o pudesse montar e galopar através dos sonhos...

Nunca senti tanta inveja na minha vida, quando vi o “nojento” do Tião, sair, todo feliz, com o cavalinho dos meus desejos nos braços. Duplamente infeliz eu fiquei, pela perda do “meu” cavalinho e por estar me sentindo mesquinha, embora nem soubesse o que era isso na época, mas seja lá o que fosse, fiquei com um aperto danado no peito. Mas engoli o choro, (fiquei até com dor de garganta de engolir o tal do choro) e, envergonhada, nada disse a ninguém, escondi minha frustração e tentei levar minha vidinha, só que não conseguia mais me animar, tudo perdera a graça, nem pensar nas bonecas que ganharia de Papai Noel me fazia esquecer do meu, pois na minha cabeça era meu, cavalinho, perdido, de pau...
Uma semana se passou, os brinquedos já tinham sido distribuídos em uma grande festa, quando, naquela manhã do dia 20 de dezembro, malas já arrumadas, pois iríamos voltar para a cidade, eu na certeza que nunca mais seria feliz, meu avô me acorda e me manda ir até à varanda...

Lá chegando, não sei como meu coração não saltou pela boca, lindo, lindo, o meu cavalinho de pau, de sela novinha, me esperando...

Esfregava meus olhos sem acreditar no que via, mas era verdade, o cavalinho tinha voltado, meu avô, que muito me conhecia, percebeu o motivo da minha recente tristeza, foi atrás do molecote e conseguiu convencê-lo a trocar o brinquedo por uma bola de futebol e um carrinho movido a pilhas.

Quando montei o bichinho, certeza tive que nunca mais seria infeliz nesta vida... Foi o melhor Natal da minha infância!

Trinta anos já se passaram, guardei meu cavalinho, nunca me desfiz dele e quando tudo parece estar muito ruim para mim, olho para ele, sossego meu coração e acredito que tudo vai dar certo, tudo vai ficar bem outra fez, que nenhuma tristeza é para sempre!

Meu cavalinho de pau chama-se Esperança...