sábado, novembro 03, 2007

sábado, novembro 03, 2007

Uma Crônica

Nesses últimos dias postei alguns textos, crônicas e contos escritos (ou cometidos) por mim... Mas, hoje, por ser sábado, dia em que me faço feliz, para o meu próprio deleite e o de todos, cedo palavra a quem sabe escrevê-la com competência.

Esta crônica é de autoria da minha amiga poeta/escritora, de muito talento, Mariza Lourenço. Certeza que vão gostar dela o mesmo tanto que gostei.

Mariza querida obrigada por ter me autorizado à postá-la.

Um Feliz Sábado a Todos!



Marcelo Augusto

Marcelo Augusto era o bam-bam-bam da Faculdade de Comunicação. Bonito, gostoso e cheio de músculos, usava calça jeans apertada e camiseta modelo "mamãe sou forte".
As meninas eram doidas por ele, os meninos morriam de inveja e os professores, não sei porque cargas d'água, só lhe davam notas altas.
Marcelo Augusto tinha um Fiat 147 amarelo-ovo, o qual fazia questão de manter sempre cheiroso e polido. Quando ouvíamos o barulho daquele motor-enceradeira, avisando-nos da sua chegada, sim, pois ele se recusava a equipar o carro com buzina, ficávamos excitadas. Até eu, noiva, de casamento marcado, suspirava cantarolando baixinho a música da moda it's raining again.
Marcelo Augusto flertava com todas e não namorava nenhuma, o que nos dava a falsa sensação de que haveria sempre a possibilidade de sermos as escolhidas. Estratégia inteligente daquele moço cheio de si. Ele sabia que era bonito e, ao contrário dos outros rapazes, era extremamente seguro de suas qualidades. E mesmo que lhe faltasse alguma, as que ele possuía tratava de supervalorizar, desviando as atenções de seus defeitos. Ora, sinceramente, éramos jovens, afoitas e sem compromisso imediato com o futuro. Só queríamos saber de namorar.
Tínhamos, cada qual, nossas preferências: eu adorava homens de ombros largos, Maria Lúcia morria por uma tatuagem e Stela se "amarrava" em olhos verdes. Mas de uma coisa não abríamos mão, o namorado, fosse ou não, uma porta, tinha que chamar atenção, provocar inveja. Besteiras adolescentes que fomos perdendo com o passar dos anos, mas que, à época, eram importantes e faziam a diferença.
Desnecessário dizer que meu noivo ao perceber o meu assanhamento resolveu antecipar as núpcias.
— A faculdade ou eu!
Marcelo Augusto ganhou a parada, digo, a faculdade ganhou a parada. Na verdade, me desvencilhar daquele compromisso foi a decisão mais responsável que eu poderia ter tomado. Era ainda muito sedenta e um casamento, certamente limitaria meus horizontes. Livre, leve e pronta pra voar, tratei de aproveitar aqueles que foram os melhores anos de minha vida. Saí com Marcelo Augusto, paquerei, beijei, cortejei, sofri horrores. E fui muito feliz.

Naquele tempo não existia a AIDS e suas conseqüências devastadoras. Fazíamos sexo com relativa tranqüilidade, sem a paranóia absurda de investigarmos as preferências sexuais de nossos parceiros. Usávamos preservativo como forma de evitar uma gravidez indesejada. No mais, tudo era motivo para comemoração. Curti minha juventude fora de casa. Saíamos aos bandos, de quinta a domingo, para cinemas, teatros, bares, boates. A Internet — instrumento poderoso de comunicação, mas limitador de contatos reais — existia somente como embrião e, talvez, por isso mesmo, a vida fosse mais saudável e com parâmetros de comportamentos mais definidos.
O Senhor tempo, implacável para com aqueles que sonham com a juventude eterna, rapidamente levou embora aqueles dias de despreocupada alegria. Tudo mudou, cada um tomou seu rumo e foi cuidar da própria vida e, exceto por um ou outro encontro casual, a maioria daqueles jovens sumiu do meu mapa. E confesso que, vez por outra, ao olhar-me no espelho, observo que até mesmo a menina Mariza partiu.

Mas de surpresas boas também se vive e uma das maiores veio tempos atrás, quando, ao sair de uma audiência, dei de cara com Marcelo Augusto. Ele me reconheceu primeiro e eu, decepcionada ao ver meu fetiche juvenil, tão diferente, tão senhor e com uma barriga saliente, fiquei muda. Só consegui me recuperar quando aquelas mãos conhecidas me acariciaram o rosto, num gesto espontâneo de extremo carinho.
Não resisti, menti descaradamente:
— Marcelo Augusto, você não mudou nadinha!
O sorriso que recebi de volta foi um presente e tanto. E que Deus não leve a ferro e fogo aquela pequena mentira. Estava homenageando meu passado, ora pois!

mariza lourenço