sábado, novembro 10, 2007

sábado, novembro 10, 2007

Uma Crônica Dela, Um Desabafo Meu

Para minimizar a saudade que sinto dos versos e da prosa dela, para embelezar este sábado, a crônica de Mariza Lourenço...


Um Cara Maravilhoso

Betão era um cara maravilhoso, mas tinha a mania irritante de acordar com as galinhas durante as férias.

— Broto, to indo pro futebol. Maior solzão lá fora, levanta dessa cama!

— Pô, Betão, sete horas da manhã! Tem dó de mim!

— Logo hoje, broto, que o golaço vai ser em sua homenagem.

— Que emoção, Beto! A gente se encontra na praia depois do jogo.

— Não sei se vou pegar onda depois, broto, pode ser que pinte outra coisa, sei lá.

Mas ele ia! Ele, sua prancha, seus cabelos compridos e aquela irresistível disposição em fazer tudo ao mesmo tempo agora.

Em cima daquela prancha (uma bi-quilha feita sob medida para aquele corpaço de arrasar quarteirão) Betão se assemelhava a um Deus, senhor do próprio destino e do meu coração, que era só derretimento. Estávamos apaixonados, mas sabíamos que era paixão provisória e que duraria o tempo exato daquele verão. Durou mais!

Namoramos firme, fizemos planos de botar o pé na estrada e até comecei a tomar gosto pelas partidas matinais de futebol. Mas o bicho da impaciência, que parecia adormecido, resolveu levar Betão pra longe de mim. Ele queria porque queria sair do país pra só viver de andar por aí. Foi bonito e duro e triste vê-lo, pela última vez, sentado em cima da prancha além da arrebentação, esperando a próxima onda.

Um aceno de mão, um sorriso e uma foto: tudo o que restou dele e daquele tempo escandalosamente lindo.

Segui a minha vida e foram tantas as mudanças que, hoje, as lembranças me doem insuportavelmente.

Betão não teve tempo de mudar. Morreu por conta da liberdade e de tantos sonhos, com o corpo devastado pelo vírus do amor.

Aqui dentro ele continua se assemelhando a Deus.

E continua lindo...

Mariza Lourenço


Um Desabafo

Quando criança tinha um amigo que sempre estava comigo... Ninguém mais o via, diziam que eu o havia sonhado, mas era tão real que nem me importava se era sonho, ou não. Levava a vida despreocupadamente, sem medo algum, segura, confiante na proteção dele. Eu o chamava de "meu anjo".

Não sei em que ponto do caminho o perdi, mas um dia ele se foi e eu segui sozinha... não mais tão segura e com alguns medos.

Muitos anos se passaram até que...

Um salão cheio de pessoas e nossos olhos se encontraram. De pronto o reconheci, mas ele não... Tanto falei que já nos conhecíamos que ele resolveu acreditar e desde então ficamos juntos, ele minha razão, eu sua emoção.

Por pudor de mulher adulta, não mais o chamava de anjo e sim de amigo. Mas me sentia igualmente protegida , acompanhada, feliz...

Porém, mais uma vez perdi “meu anjo”, por uma mentira. Mentirinha pouca, que perdoaria a qualquer outro, mas não a ele que sonhei ser anjo...

Pena, nunca foi, é apenas um homem, comum como os outros. E eu vou continuar seguindo sozinha, não mais segura e com todos os medos.

Este o motivo da minha tristeza dos últimos dias, o meu desencanto com o meu melhor amigo. Uma mágoa enorme que não me cabe no peito e escorre pelos meus olhos...