sexta-feira, novembro 02, 2007

sexta-feira, novembro 02, 2007

Sobre Hoje, Perdas, Saudade

Sobre hoje...

A Instituição de um dia especial no ano para lembrar espiritualmente os finados deve-se a uma iniciativa tomada pelos monges beneditinos por volta do ano 1.000. O abade Santo Odilão, superior do Mosteiro de Cluny, na França, deu ordem para que em todos os conventos, filiados a essa Ordem, se celebrasse um ofício pelos defuntos, na tarde de 1 de novembro. Essa comemoração foi adotada pela autoridade da Igreja, de tal modo que aos poucos se tornou Universal a dedicação do 2 de novembro à memória dos mortos.

“O Dia de Finados é o dia da celebração da vida eterna das pessoas queridas que já faleceram. É o Dia do Amor, porque amar é sentir que o outro não morrerá nunca... “

“Mesmo calada a boca, resta o peito”...

Quando o tomou nos braços pela primeira vez, teve certeza que seu nome era “Amor”, não o que tinha escolhido antes, Igor. Certeza tinha também que jamais se sentiria sozinha novamente. Nenhuma dor seria maior do que a alegria de sabê-lo só dela... Não mais se importaria com as ausências e o silencio do Outro. Agora sim, seria feliz para sempre.

Só que ainda não sabia que o “para sempre” não existia, não para Ela.

Igor tinha os olhos azuis, azuis da cor do céu, e por isso, talvez, amasse tantos as estrelas. Ficava horas a observá-las...

Via estrelas a qualquer hora do dia, da noite e até em noites de chuva, estrelas que só ele via...

- Mamãe, posso passear no céu?
- No céu Amor? O que vai fazer lá?
- Vou catar estrelinhas...
- E para quê vai querer estrelinhas?
- Vou fazer um colar procê...
- Não quero que vá, a mamãe não precisa de colar de estrelas, tenho todas as estrelas que quero dentro dos seus olhinhos...

Além das estrelas, Igor amava os animais, as plantas, a natureza. Era um menininho feliz e o mais lindo que Ela já tinha visto, não porque fosse seu, mas porque era mesmo. Tão pequenino e tão observador...

- Mamãe por que está chorando?
- Mamãe não chora, não vê que meus olhos estão secos?

Ele então colocava a mãozinha sobre o peito dela e dizia:

- Chora aí dentro, eu sinto.

A vida seguia e os dois juntos, sempre juntos, amigos, cúmplices, se bastavam, eram felizes...

Naquela noite de tempestade, só se viam relâmpagos no céu e os raios que rasgavam a escuridão...

- Mamãe, por favor, abra um pouquinho a janela
- Para quê Amor?
- Quero ver as estrelas
- Mas chove tanto Amor, hoje não tem estrelas e você não pode tomar friagem
- Por favor, por favor, só um pouquinho...

Ela então, mais uma vez, fez a vontade Dele e abriu a janela.

-Veja mamãe que linda! Uma estrela de rabo!

E, tão encantado ficou com o que só ele viu, que resolveu “pegar carona na cauda do cometa” e partiu, atrás das suas estrelinhas...

Ela lá ficou sozinha sem o seu Amor...

Uma saudade enorme dentro do peito, uma dor tamanha para um só coração.


Um Poema de Florbela Espanca

Alma Perdida

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...