quarta-feira, novembro 28, 2007

quarta-feira, novembro 28, 2007

Só uma prosa...


Hoje, por algum tempo, estive privada da minha liberdade de ir e vir. Fui submetida a um procedimento médico e tive que permanecer internada por eternas 8 horas. Coisa pouca, mas como sou muito agitada, uma tortura.

Se, fisicamente, estava impossibilitada de sair dali, daria um jeito de escapulir pelo pensamento...

Poderia recordar o passado, mas a idéia não me agradou, afinal passado é só isso: passado, já foi... planejar os próximos dias, também não, pois gosto de deixar a vida me levar... melhor mesmo seria imaginar o “meu amor”, o amor que ainda não sei o nome, o cheiro, o gosto, mas que deve estar me esperando em algum lugar do planeta .

E lá estava eu, perdida em meus pensamentos, com o coração totalmente distraído, quando fui abruptamente trazida de volta àquela realidade branca, pela voz que vinha do leito ao lado.

- Podemos conversar?

Minha vontade era dizer: – não podemos. Porém, ainda não aprendi a dizer “NÃO”, coloquei meu melhor sorriso no rosto e disse: - Será um prazer - foi o que bastou para que minha alma ficasse cinzenta, de vez...

A mulher começou a falar e a se lamentar; reclamou do marido que a traia, dos filhos que não a obedeciam, da faxineira que não fazia seu serviço direito, do chefe que não reconhecia seu esforço e competência, das amigas falsas, das colegas invejosas, do tempo abafado, da hipertensão, dos quilos a mais, da celulite, das estrias, dos calores da menopausa, da falta de dinheiro... reclamou de tudo e de todos, nada na sua vida era como deveria ser e com a frase final: - Deus decidiu assim -, felizmente, adormeceu...

Eu fiquei acordada e muito incomodada, sem atinar a razão, até que percebi que aquela mulher era o avesso do meu avesso. Jovem ainda na aparência, uns 50 anos, mas com uma desilusão milenar, de quem tudo já viveu e só colecionou cansaço, nenhuma sabedoria, e desistiu de ser feliz...

Ela continuava dormindo sem imaginar como havia me afetado, pois se tem algo que me entristece e apavora é esse sentimento de derrota, ser vencida pela vida, pelo tempo, pela idade, pelas dores, pelos sonhos não realizados.

Essa mulher causou-me compaixão e aversão. É o que não sou, nunca fui, e, certeza, nunca serei. Esse conformismo, esse sentimento de derrota, não me cabe.

E mesmo que eu tropece muitas vezes, que caia outras tantas, que sofra, que chore, tenho fé que nunca vou perder a minha capacidade de lutar, de sonhar, de amar, de acreditar na vida, nas pessoas e na felicidade. É só o que quero e preciso, hoje e sempre. É o que me basta!

MILAGRE



É tempo de arranhar

fundos de tachos

de cavar água em pedra

de procurar sementes,

porque estamos vivos.

É tempo de dissecar

as dores maiores

até transformá-las em bálsamo,

porque estamos vivos.

É tempo de acreditar

no pouco que sobrou

sob os escombros.

É lá que sempre se esconde

a fênix, o escaravelho,

delicadezas de libélula.

É tempo de enxergar, ainda,

na palma de cada mão

um milagrinho diário.

É para isso que estamos vivos.