terça-feira, novembro 20, 2007

terça-feira, novembro 20, 2007

Minha Infância e a Literatura

Meu amor pela literatura começou ainda na infância. Fui alfabetizada aos cinco anos, tamanha era a minha curiosidade pelas letras... Meu avô gostava de ler o jornal antes de todo mundo, mas eu não lhe dava sossego, ficava todo o tempo ao lado dele perguntando: - Essa letra com essa outra que som faz? E assim fui descobrindo as palavras, aprendendo a ler e me encantando pelos livros.

Como toda criança, adorava os contos de fadas, as aventuras das mil e uma noites, mas meus livros preferidos eram os de Monteiro Lobato, as histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo. Morava em uma casa grande e no quintal estava a minha alegria: várias árvores frutíferas. Debaixo delas, onde começava a terra, que eu me sentava com o livro da ocasião nas mãos e, com o sabor doce da fruta na boca, as narinas impregnadas com aroma da terra, sentia toda a emoção de viajar por aquele mundo das palavras, da imaginação.

Foi também nesta época que me apaixonei pela poesia, ao ler num velho livro, já desgastado pelo manuseio, “Ismália” de Alphonsus de Guimaraens, poeta mineiro, nascido em Ouro Preto no ano de 1870 e falecido em 1921.

Esse poema , triste e belíssimo, não só despertou a minha paixão pela poesia como também o meu amor e interesse pelos loucos, o que foi determinante para a escolha da minha profissão, mas isso é tema para um outro post...
Ismália
Alphonsus de Guimaraens


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
Considerado um dos grandes nomes do Simbolismo, e por vezes o mais místico dos poetas brasileiros, Alphonsus de Guimaraens tratou em seus versos de amor, morte e religiosidade. A morte de sua noiva Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas.

Em toda sua trajetória literária, é translúcido o sofrimento que pontuava sua existência, por vezes soava até mesmo como uma convenção poética. Mas sabe-se que nem o casamento, nem a vida pacata em Mariana, atenuava o sofrimento perene dado pela ausência de Constança.

Publicado no livro “Pastoral aos crentes do amor e da morte” Ismália, poema integrante da série "As Canções", foi incluído no livro “Os cem melhores poemas brasileiros do século”, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, pág. 45, uma seleção de Ítalo Moriconi.