domingo, novembro 04, 2007

domingo, novembro 04, 2007

Cláudia Camara

Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí...Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!
(Mário Quintana)

E foi assim que a ”achei”...

Teria, mais uma vez, que fazer uma palestra sobre “Mentiras e Fofocas” e cansada da mesmice que era repetir, todos os anos, a mesma coisa, ainda que para pessoas diferentes, tinha resolvido incrementar meu texto e para isso fui consultar o “Google”...

Logo aquele link despertou minha atenção, pensei tratar-se de mentiras de políticos e, não resistindo à curiosidade, acessei o ”Mentiras Históricas".

Encantei-me à primeira leitura, poemas, crônicas, textos, prosas poéticas da melhor qualidade literária. Lia tudo, avidamente, nem me lembrava mais da tal palestra. Repetia, em voz alta, “não acredito no que leio, essa moça pegou meus pensamentos e os transformou em pura poesia”.

Desde então sempre a leio e hoje tenho a enorme alegria de tê-la como amiga, Cláudia Camara, Escritora, Poeta, Redatora, Publicitária e, para o meu orgulho, Mineira de Belo Horizonte.

Tantas afinidades descobrimos ter, ela e eu, além de sermos parecidas fisicamente e torcermos pelo mesmo time, o Atlético Mineiro, que ela brincou que fomos separadas na maternidade. Coube a ela ficar com o melhor, o dom de escrever lindamente. Ela o verso, eu o reverso.

Precious little things

Teve um tempo na minha vida que eu guardava, sem nojo, chicletões ping-pong mastigados, dentro de um copo com água da talha. Pra aproveitar no dia seguinte. Às vezes eu guardava um pirulito meio chupado do mesmo jeito. Só que o pirulito, sei lá porque, eu guardava o copo na geladeira com ele afogado lá no fundo. Ovo de páscoa também. Eu mordia pequenininho e embrulhava de novo no papel de metal, colava uma etiqueta de escola: Pertence à: Claudia. Adorava economizar muito o chocolate. E gostava muito de pegar o doce com aquela pele branquinha de gelado. Baforar ele até desprender o cheiro de derretido. E depois comer devagar. Se possível na frente de alguma irmã ou primo, cujos ovos da Páscoa já tivessem acabado. Era bom ter o que barganhar. Era bom passar vontade neles. Ir mordiscando os pedacinhos, falar hummmmm enquanto expremia a massa de chocolate com a lingua no céu da minha boca.

Hoje, mulher sem direito a crueldades meninas, eu guardo em copos e bem mastigadas, dores antiguinhas. Dores de estimação. Pode ser uma saudade de um lugar, ou de um cheiro, coisinhas que me mantém com 18 anos. Um amor que não foi mordido, lambido, mastigado,vivido até acabar o gosto. E por isso eu guardo nos porões da minha memória, com a mesma etiqueta: Pertence à Claudia. De vez em quando eu pego esse amor e fico baforando ele com o hálito cheio de lembranças. E vejo ele se render ao meu chamado e aparecer sob a névoa branca do frio e do tempo. Ele vem, todo derretido, doce e gostoso como os chocolates da minha infância.

Então é por isso que umas dores que eu conservo cuidadosamente, guardo pra aproveitar depois. Dores físicas gostosinhas e dores de coração esgarçado.

Cláudia Camara