quinta-feira, outubro 25, 2007

quinta-feira, outubro 25, 2007

Em Algum Lugar do Passado


Era um colégio de brancos, de brancos não, de brancas, já que somente meninas estudavam lá. Homem, só o padre, já velho e meio caduco.

Tinha quatorze anos e estava na oitava série... Até gostava de estudar, mas não naquele colégio reacionário. Odiava usar meus longos cabelos sempre presos, a saia abaixo dos joelhos e invejava as meninas da escola pública, bem ali ao lado, que podiam usar mini-saias e conversar com rapazes no portão.

As aulas de religião, verdadeiras torturas para mim. A professora era uma freira tão sem piedade, de olhar duro, que me parecia impossível que pudesse ensinar alguma coisa sobre o amor a Deus ou o amor e a misericórdia de Deus.

Aliás, misericórdia era uma palavra desconhecida para aquela mulher que via pecado em tudo e nos atemorizava com visões do fogo do inferno. Um suplício!

Estrategicamente, eu me sentava perto da janela que se abria para o jardim do colégio e me distraía olhando as borboletas, pássaros ou até uma abelha ou mosca que passasse voando, qualquer coisa era melhor do que encarar aqueles olhos de águia, as feições macilentas da freira professora.

Naquele dia, não sei se pelo calor demasiado, a aula estava insuportável, Irmã Dorothéia, esse o nome da bruxa, estava mais irada do que nunca, falando sobre os castigos de Deus a quem desobedecia as suas leis...

Eu tinha que escapulir dali... Foi quando, procurando uma rota de fuga, olhei pela janela e...

A primeira vista pensei ser uma estátua, lindamente esculpida em mármore, até que ela se mexeu e vi que era um negro, que cuidava das plantas...

Um negro tão negro que chegava a ser azul. Esfregava meus olhos achando que estava tendo uma visão, uma alucinação. O meu mundo não era habitado por negros, todos eram pálidos, brancos, quase transparentes. Jamais tinha visto um homem bonito assim, alto, musculoso, de dentes tão brancos.

Precisava vê-lo de perto, tocá-lo, saber se era real...

Coração disparado, pulso acelerado e aquela umidade por entre as pernas, até então por mim desconhecida, e, foi ela que me deu a idéia salvadora para sair da sala de aula...

- Irmã, eu preciso ir ao banheiro, fiquei menstruada e o sangue me desce pelas pernas...

Sem esperar resposta, saí correndo e me dirigi ao jardim ao encontro dele...

-Moço como se chama?
-É menina ou é um anjo?
- Sou mulher, diga seu nome e o que faz aqui.
-Meu nome é Obá e estou cuidando do jardim para pagar o pão e o leite que me deram.
-Obá? Nome esquisito...
-É Africano, significa rei
-Você é um rei?
-Eu não sou, mas, meus antepassados foram reis, rainhas, até que seu povo os escravizou...
-Não tenho povo, tenho família, amigos...
-Deixa pra lá meu anjo, você não tem culpa...
- Alguma culpa hei de ter, já que não sou anjo, sou mulher, já disse!
- Menina, anjo ou mulher, o que quer de mim?
-Quero você!
-Menina, menina, tem cara de anjo, mas precisa rezar para São Bento pra espantar o capeta que carrega aí dentro de você.
-Não quero saber de rezas nem de santos, quero você, já disse isso também.
- Já estou indo embora...
-Vou com você... Para onde vai?
-Vou cair no mundo, não posso levar você comigo...
-Não pode? Quem disse? Não me quer?
-Eu digo, não posso... e, quero sim, mas não devo
-Então me dá um beijo, na boca, de língua...

E já fui oferecendo os lábios... Ele então me beijou, um beijo molhado, sua língua mexia dentro da minha boca como se cobra fosse, provocava espasmos pelo meu corpo, me penetrava toda, eu totalmente possuída por ela...

Ele já se fora, mas eu continuava ali, por tanto tempo que nem sei...

Não sei também como voltei para minha casa, não sei o que aquelas pessoas todas que me esperavam falaram. Sei que nada disse.
Entrei para o meu quarto e continuei muda, ainda sentindo aquela língua dentro da minha boca...

Não podia falar, se abrisse a boca a língua dele poderia me fugir e partir atrás do seu dono, e, agora que a tinha não poderia mais ficar sem ela.

Muitos anos já se passaram, essa história ficou em algum lugar do passado... Será?

Até hoje ainda procuro, nas bocas que me beijam, a língua de Obá.